No dia seguinte ao da minha chegada deram-me uma amiga. Para além de primeira amiga, a Fefa foi também o primeiro capítulo de um manual de sobrevivência, ainda em aprendizagem, agora já com a ajuda de outros amigos. Aqui as pequenas coisas do dia-a-dia não são fáceis para um europeu recém chegado. Há situações e circunstâncias com as quais não sabemos imediatamente como lidar, pequenos problemas cuja solução para nós não é óbvia, obstáculos cujo contorno é pouco claro e, embora as pessoas aqui sejam no geral educadas e amáveis, vêem-nos sempre como estranhos. O código social e cívico entre as pessoas de cá não é aplicável aos de fora. A companhia assídua da Fefa nas primeiras semanas possibilitou-me uma percepção mais rápida das nuances desse código e, simultaneamente, deu-me tempo para poder ser olhada como sendo um pouco mais daqui.
Com a minha nova amiga, fiz as primeiras incursões pelas lojas e mercados da cidade, aventurei-me por estradas secundárias e picadas no meio do capim para conhecer mais fim de mundo, adquiri conhecimentos e tive novas experiências gastronómicas, aprendi a mostrar-me confortável em situações desconfortáveis e também conheci pessoas, algumas das quais novos capítulos de um manual de sobrevivência mais alargado. Aqui, há fortes relações de interdependência e de influências, pelo que conhecer pessoas é fundamental para que a permanência decorra sem grandes sobressaltos. A Fefa não o diz, mas percebe-se que o sabe.
Dona Fefa é o que aqui se chama uma “mamã”, tratamento de respeito aplicado geralmente a mulheres mais velhas, mães de família. Na realidade, a minha amiga é até mais nova do que eu, mas as pessoas dirigem-se-lhe com um "Bom dia mãe!", “Passar bem, mãezinha!”, “São duzentos kwanzas, mamã…”. A mim costumam chamar-me de "irmã", até em situações menos comuns … “irmã, vais ter de levar multa…”, disse-me uma vez um polícia (depois, e após argumentação da “mamã”, acabou por reconhecer que não havia motivo para multa alguma). Os putos da rua chamam-me geralmente de “madrinha”… “madrinha, dá 10 pró pão!”, “madrinha, não queres lavar carro?”.
A Fefa, além de ser uma mulher muito inteligente, tem a sabedoria, o espírito prático e demais argumentos de quem soube sobreviver a tempos difíceis. Durante a guerra, o serviço a que pertencia deixou de funcionar e, como a maioria das pessoas, ficou sem emprego. Foi necessário garantir a sobrevivência e o sustento da família através de expedientes que muitas vezes representavam risco de vida. Arcou com esse risco nas muitas vezes que saiu da cidade cercada para adquirir, em locais por vezes distantes, bens de consumo que trazia para vender. Hoje, com uma vida estável, raramente fala do passado, é alegre e distribui generosidade. Continua a ser o suporte de uma numerosa família alargada e ainda arranja disponibilidade e amizade para dedicar a desconhecidos que acabam de lhe aterrar no colo vindos de outro continente.
Com a minha nova amiga, fiz as primeiras incursões pelas lojas e mercados da cidade, aventurei-me por estradas secundárias e picadas no meio do capim para conhecer mais fim de mundo, adquiri conhecimentos e tive novas experiências gastronómicas, aprendi a mostrar-me confortável em situações desconfortáveis e também conheci pessoas, algumas das quais novos capítulos de um manual de sobrevivência mais alargado. Aqui, há fortes relações de interdependência e de influências, pelo que conhecer pessoas é fundamental para que a permanência decorra sem grandes sobressaltos. A Fefa não o diz, mas percebe-se que o sabe.
Dona Fefa é o que aqui se chama uma “mamã”, tratamento de respeito aplicado geralmente a mulheres mais velhas, mães de família. Na realidade, a minha amiga é até mais nova do que eu, mas as pessoas dirigem-se-lhe com um "Bom dia mãe!", “Passar bem, mãezinha!”, “São duzentos kwanzas, mamã…”. A mim costumam chamar-me de "irmã", até em situações menos comuns … “irmã, vais ter de levar multa…”, disse-me uma vez um polícia (depois, e após argumentação da “mamã”, acabou por reconhecer que não havia motivo para multa alguma). Os putos da rua chamam-me geralmente de “madrinha”… “madrinha, dá 10 pró pão!”, “madrinha, não queres lavar carro?”.
A Fefa, além de ser uma mulher muito inteligente, tem a sabedoria, o espírito prático e demais argumentos de quem soube sobreviver a tempos difíceis. Durante a guerra, o serviço a que pertencia deixou de funcionar e, como a maioria das pessoas, ficou sem emprego. Foi necessário garantir a sobrevivência e o sustento da família através de expedientes que muitas vezes representavam risco de vida. Arcou com esse risco nas muitas vezes que saiu da cidade cercada para adquirir, em locais por vezes distantes, bens de consumo que trazia para vender. Hoje, com uma vida estável, raramente fala do passado, é alegre e distribui generosidade. Continua a ser o suporte de uma numerosa família alargada e ainda arranja disponibilidade e amizade para dedicar a desconhecidos que acabam de lhe aterrar no colo vindos de outro continente.
6 comentários:
Que bom saber que está tudo a correr bem. As novas amizades são um factor de adaptação muito importante, mas vê lá não te esqueças do pessoal aqui do rectângulo. Espero que vás escrevendo regularmente e não te esqueças das fotos (muitas!) porque a malta adora reportagens ilustradas. Já agora o que é o ximbeco? É a tua casa? Bjs grandes.
Cris.
Ximbeco é (a bem dizer...) uma casa, sim ;)
Bj.
Também quero uma Fefa!
Querias!
;D
Eu acho que um Fefo faria mais o teu género. Eh eh. Tenho andado distraída, percebi. Tanto material de leitura que "inté" me assustei!
Bjos
"Fefos" não será o que mais abunda. Ou então quem anda distraída sou eu, que ainda não me apercebi de nenhum. O homem mais interessante de Malange tem mais de 60 anos... é o "amigo português". E há aí "cubo" que não não será de deitar fora. Um dia destes tenho de escrever um post sobre os amigos "cubos" ;)
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