As minhas noites são sinfonias de grilos e as madrugadas recitais de passarada. Mas esta noite substitui-se-lhes a tempestade. Aqui há muitas nesta altura do ano, mas como a de ontem ainda não tinha visto. A chuva, que se adivinhava pelo calor sufocante sentido ao longo da tarde, chegou já de noite, tardia em relação à hora habitual. E nessa urgência do tempo coarctado parece querer derramar-se toda de uma vez, martelando violentamente os telhados e alpendres. A este martelar só se sobrepõe o ainda mais violento trovejar. Os relâmpagos desofuscam a noite em redor, qualquer que seja a direcção em que se olhe. O trovão que se lhe segue faz estremecer a paisagem ainda aclarada. E eu estremeço também. É um espectáculo magnificente mas intimidante que, sentindo-me pequenina, aprecio por detrás da janela. Quando a chuva abranda e a trovoada se afasta um pouco, saio ao alpendre, fecho os olhos, sinto a humidade no rosto e inspiro profundamente aquele cheiro a terra molhada que, em Portugal, só se sente após uma chuvada de verão. A intensidade volta a aumentar e eu volto a recolher-me por detrás da janela. Fecho as cortinas e ajeito a rede mosquiteira em redor da cama. Hoje não se ouvem os grilos e não sei se amanhã a passarada me irá acordar. Sei que os buracos na estrada de terra batida, que conduz ao ximbeco, vão estar mais largos e mais profundos e as habituais poças de água vão estar transformadas em autênticos lagos. Não sei se a estrada vai conseguir permanecer transitável até ao final das chuvas... Os chineses que trabalham na obra aqui ao pé já abriram mais uma passagem onde antes era capim... talvez por aí se circule mais facilmente. A mente divaga cada vez mais... os pensamentos também são como as cerejas... as pálpebras pesam mais e mais. Adormeço com o timbalar da chuva no telhado, mesclado a espaços pelos trovões que ainda ecoam, agora mais longínquos e mais suavizados. O meu último pensamento deste dia (neste caso desta noite) é para vocês. Sorrio, as glândulas lacrimais agitam-se… e escapa-se uma gotinha de saudade. Até amanhã.
sexta-feira, 13 de março de 2009
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2 comentários:
Chuac!
;o)
Também temos saudades tuas, mas eu sei como deves estar a sentir-te bem aí, a fazer aquilo que há tempo desejas. Beijo grande e continua a manter-nos informados.
Cris.
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