domingo, 15 de março de 2009

Retalhos da vida no ximbeco

Como facilmente se adivinha, muitas das coisas certas na Europa, não o são em África. Por exemplo: água, energia eléctrica, recolha de lixo, etc. Na cidade, a maioria das casas não possui água canalizada (a rede de abastecimento foi quase totalmente destruída durante a guerra e a reabilitação só agora está a ter início) e os cortes de energia são constantes e prolongados. No ximbeco não existe água nem energia da rede. A energia está a poucas dezenas de metros e diz-se que talvez chegue aqui dentro de um par de meses. Até lá, vale o gerador. A água, penso que nem dentro de uma par de décadas aqui chegará. Para já existe um furo e uma electrobomba. Não se está mal, desde que não falte o gasóleo… o gasoile, como se diz por aqui.
Gasóleo para o gerador significa, em linguagem da Europa, energia para fazer funcionar a bomba de água (ou seja água nas torneiras e no duche), luz, ar condicionado, frigorífico, máquina de lavar, computador, internet e outros “luxos”.
O gerador do ximbeco, na realidade, dá para alimentar uma aldeia inteira… se aldeia houvesse, o que não é o caso. Tal despropósito traduz-se num consumo absurdo de 70 litros para 12 horas de funcionamento (felizmente que o gasóleo aqui é uma pechincha e não sou eu que o vou pagar), o que obriga a incluir na rotina diária a ida ao posto de abastecimento, geralmente após o jantar, porque durante o dia não há tempo para estar em “filas” do tipo tudo-ao-molho-e-fé-em-Deus-todos-ralham-ninguém-tem-razão-e-entretanto-o-gasoile-acaba-antes-que-chegue-a-minha-vez. À noite é tudo mais calmo, mas por vezes há que percorrer todas as capelinhas, que é como quem diz os sete ou oito postos de abastecimento da avenida principal, até encontrar um que reúna a difícil combinação dos seguintes acasos: o posto estar aberto, ter gasóleo, abastecer bidons e não apenas depósitos de viaturas, a bomba não estar avariada e haver energia para a bomba poder abastecer.
Quando as tardes trazem trovoadas violentas e prolongadas, como tem sucedido nos últimos dias, o gerador vai abaixo e, durante algumas horas, fica-se sem energia, o que significa ficar também sem água. A prudência aconselha ter sempre um reservatório cheio para que, nestas situações, seja possível ter o banho de final de dia, nem que seja de caneco. Depois, já escuro e vestida para jantar, quando não me abandono no deslumbramento das violentas manifestações atmosféricas, aproveito o que existe de bateria no portátil para escrever algumas linhas, assistir a um episódio de uma qualquer série, ou ouvir um pouco de música.
No regresso do jantar, o São Pedro já se acalmou ou apenas resmunga em surdina. Volta a ligar-se o gerador e ainda há tempo para uma ou duas horas de internet para pôr a conversa em dia, porque as chamadas telefónicas são caras e estão sempre a ir abaixo. Quando o cansaço é grande e o apelo à posição horizontal é forte, o caminho é directo para a cama. Confirmo a presença da lanterna na mesa de cabeceira… depois, mais um pouco de música, mais alguns apontamentos rascunhados no caderno, umas páginas de leitura, ou um filme que por vezes o sono não permite ver até ao fim. À meia-noite o ximbeco dissolve-se na escuridão em volta. Mimetizam-se também os guardas que se acomodam no abrigo junto ao portão, com as companheiras de todas as noites (a lanterna pousada ao seu lado e a kalash pendurada no ombro). A luz voltará com o raiar do dia seguinte.

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