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quinta-feira, 7 de maio de 2009

A minha aldeia (1)


É a aldeia onde tenho passado a maior parte do meu tempo de trabalho. Fica a cerca 60 km do ximbeco. São 25 km de boa estrada nacional, mais 30 km de estrada secundária com mais buracos do que asfalto e ainda mais 7 km de picada no meio do capinzal. É uma típica aldeia africana, com casas de adobe, chão de terra batida e cobertura de capim. Mangueiras enormes em cuja sombra se reúnem as assembleias e onde se recebem os convidados. Crianças que brincam descalças no terreiro, com brinquedos saídos da sua imaginação. Cabras, cabritos, bois e porcos que se passeiam livremente entre as habitações. Os adultos só se acham até pouco depois do nascer do sol, altura em que partem para a lavra, ou então ao pôr-do-sol, hora a que dela regressam. Os homens trazem as catanas e as enxadas. As mulheres também, e trazem ainda os molhos de lenha à cabeça. Há ainda que arranjar tempo para ir buscar a água na manivela, tarefa em que as crianças também ajudam.

São pobres as mais de duzentas famílias que ali habitam. A lenha é o fogão, o candeeiro de petróleo a clareza, o luando o leito onde pernoitam. São famílias camponesas que tiram o sustento da terra, que cultivam com pouco mais do que as suas mãos. O funge de bombó é o alimento de todas as refeições. Às vezes acompanham com um pouco de peixe ou carne seca, às vezes não acompanham com nada.

Tudo está incrivelmente limpo, os terreiros são varridos diariamente. Ao longo do dia esboça-se um fino tapete de folhas, que o vento faz desprender das mangueiras, mas que as cabras, vorazes, não deixam acumular. As raparigas em idade escolar, que ainda não vão às lavras, dedicam parte do seu horário livre a tarefas domésticas ou fazem os deveres à porta de casa. Os rapazes andam simplesmente por ali, conversando ou atrevendo-se junto das raparigas.

As crianças são alegres, talvez porque apesar da escassez crescem livres. Corpos esguios e ágeis que trepam às mangueiras, rastejam pelos ramos deixando-se depois escorregar para o solo. Os mais velhos reprovam a brincadeira, partir ramos significa menos fruta que há-de vir. Obedientes, de imediato encontram outro divertimento. Com imaginação e engenho constroem os seus próprios brinquedos com os materiais que têm à mão. Latas velhas e caules de bananeira que rapidamente tomam forma de carrinhos e de barcos. Nos dias ventosos, uma folha de mangueira apanhada do chão e espetada num pequeno pau transforma-se em hélice de avião. Lembra-me os moinhos de papel com que em criança costumava brincar à beira-mar. E os meninos-avião correm pelo terreiro, as folhas-hélice girando, girando... Quando vêm o “objecto mágico”… Madrinha, tira uma foto! Todos se apinham, parecendo querer entrar pela objectiva adentro. É preciso explicar que assim não vão caber todos, têm de se afastar um pouco. Lá sai a fotografia. Segue-se a excitação de se verem retratados e depois o retorno às brincadeiras. Lembro-me do título de um livro escolar da minha infância... uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma… é disso que se alimenta a alegria destas crianças. Respiro fundo e desvio o olhar.

Desvio também o pensamento para o trabalho a fazer.
À sombra da mangueira grande ouvem-se as queixas, conhecem-se os anseios, sentem-se as hesitações, adivinham-se os receios e as desconfianças. Reconhecem-se os esperançosos, confiantes no sucesso do projecto, os resignados no seu cepticismo indiferente e os descrentes convictos, cansados de projectos promessa de uma vida melhor. Não sei o que me é mais desconfortável, se a desconfiança, se a expectativa em algo para o que não tenho a certeza de poder contribuir. Dói-me a resignação deles, dói-me a minha insegurança doem-me as certezas e também as incertezas... between a rock and a hard place… é assim que vejo estes homens e mulheres e é assim que me sinto tentada a sentir! Mas aqui não pode haver lugar para a compaixão. Quem se perde na compaixão perde a proficiência, o rumo e até as forças… disseram-me há algum tempo atrás. Mas esta é uma aprendizagem que requer endurance. E em cada regresso a casa não consigo impedir-me de pensar que há os que tiveram a sorte de nascer no lado certo da vida e os que tiveram o azar de nascer no lado oposto.

E tomada da frivolidade bacoca dos privilegiados também não consigo impedir-me de pensar o quanto a minha aldeia é bonita.


(quando a net o permitir alargo a reportagem fotográfica)

sexta-feira, 13 de março de 2009

Tempestade rima com saudade

As minhas noites são sinfonias de grilos e as madrugadas recitais de passarada. Mas esta noite substitui-se-lhes a tempestade. Aqui há muitas nesta altura do ano, mas como a de ontem ainda não tinha visto. A chuva, que se adivinhava pelo calor sufocante sentido ao longo da tarde, chegou já de noite, tardia em relação à hora habitual. E nessa urgência do tempo coarctado parece querer derramar-se toda de uma vez, martelando violentamente os telhados e alpendres. A este martelar só se sobrepõe o ainda mais violento trovejar. Os relâmpagos desofuscam a noite em redor, qualquer que seja a direcção em que se olhe. O trovão que se lhe segue faz estremecer a paisagem ainda aclarada. E eu estremeço também. É um espectáculo magnificente mas intimidante que, sentindo-me pequenina, aprecio por detrás da janela. Quando a chuva abranda e a trovoada se afasta um pouco, saio ao alpendre, fecho os olhos, sinto a humidade no rosto e inspiro profundamente aquele cheiro a terra molhada que, em Portugal, só se sente após uma chuvada de verão. A intensidade volta a aumentar e eu volto a recolher-me por detrás da janela. Fecho as cortinas e ajeito a rede mosquiteira em redor da cama. Hoje não se ouvem os grilos e não sei se amanhã a passarada me irá acordar. Sei que os buracos na estrada de terra batida, que conduz ao ximbeco, vão estar mais largos e mais profundos e as habituais poças de água vão estar transformadas em autênticos lagos. Não sei se a estrada vai conseguir permanecer transitável até ao final das chuvas... Os chineses que trabalham na obra aqui ao pé já abriram mais uma passagem onde antes era capim... talvez por aí se circule mais facilmente. A mente divaga cada vez mais... os pensamentos também são como as cerejas... as pálpebras pesam mais e mais. Adormeço com o timbalar da chuva no telhado, mesclado a espaços pelos trovões que ainda ecoam, agora mais longínquos e mais suavizados. O meu último pensamento deste dia (neste caso desta noite) é para vocês. Sorrio, as glândulas lacrimais agitam-se… e escapa-se uma gotinha de saudade. Até amanhã.