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sábado, 2 de maio de 2009

O ximbeco e arredores

A estrada para o ximbeco:

Ao virar da última curva:

A chegada:


O humilde quartinho:

O pátio:

O bicho "papão":

Lá fora também se trabalha:

O resto é paisagem:

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O intruso nocturno

Já passava das 23 horas, estava eu em vale de lençóis, os grilos grilavam como habitualmente, e eu pronta para viajar para o país dos sonhos. Subitamente um grande alarido lá fora...
- Mata, mata!... Está a fugir para ali!... Atira!...
Pelo meio sons de qualquer coisa a bater...
Sentei-me na cama a tentar perceber o que se passava, o coração a bater forte. Aconselharia a prudência a que eu me mantivesse às escuras e me barricasse na casa de banho. Mas já dizia o outro que a curiosidade matou o gato e lá agarrei na lanterna que dorme na minha cabeceira e, à falta de um colete à prova de bala, saí para o quintal mesmo de pijama e chinelos. Na esquina do bloco de quartos, vejo os guardas dessa noite, o Filipe que batia furiosamente com um pau no chão vociferando algo que entretanto eu já nem percebia e o Cardoso virado para ele apontando a kalash. Recolhi-me novamente, respirei fundo três vezes e voltei a abrir a porta. Lá me saiu a pergunta retórica:
- Tudo bem por aí?...
(retórica e ridícula, direi eu…).
- Matámos dôtora, matámos!
- Mataram??!!!??
- Sim, matámos a cobra!

Ah!... respirei novamente, acho que de alívio, não sei bem. Lá me aproximei o mais que consegui, pois com a escuridão o melhor era jogar pelo seguro. Apontei a lanterna, o bicho já ensanguentado e meio estripado ainda se mexia.
- Cobra, aqui? E mataram mesmo? Está mesmo morta?
- Sim, sim. Eu mesmo matei… com o pau. O Cardoso queria atirar nela mas estava muito escuro e não dava…

Foi a primeira vez que ouvi falar em matar cobras com rajada de metralhadora, mas pronto, se calhar também dá.
Depois de mais dois dedos de conversa (sobre cobras e outras feras) lá voltei para a camita, não sem antes vedar a fresta por baixo da porta e entalar o melhor que pude a rede mosquiteira por baixo do colchão. O cansaço acabou por se sobrepor a qualquer receio e em poucos segundos "apaguei".

Aqui fica a foto do bicho tirada na manhã seguinte. Disseram-me que era uma cuspideira, mas como destes bichos a única coisa que sei é que tenho medo deles, por mim pode ser qualquer coisa. Talvez o senhor biólogo me possa dar uma pista...

domingo, 15 de março de 2009

Retalhos da vida no ximbeco

Como facilmente se adivinha, muitas das coisas certas na Europa, não o são em África. Por exemplo: água, energia eléctrica, recolha de lixo, etc. Na cidade, a maioria das casas não possui água canalizada (a rede de abastecimento foi quase totalmente destruída durante a guerra e a reabilitação só agora está a ter início) e os cortes de energia são constantes e prolongados. No ximbeco não existe água nem energia da rede. A energia está a poucas dezenas de metros e diz-se que talvez chegue aqui dentro de um par de meses. Até lá, vale o gerador. A água, penso que nem dentro de uma par de décadas aqui chegará. Para já existe um furo e uma electrobomba. Não se está mal, desde que não falte o gasóleo… o gasoile, como se diz por aqui.
Gasóleo para o gerador significa, em linguagem da Europa, energia para fazer funcionar a bomba de água (ou seja água nas torneiras e no duche), luz, ar condicionado, frigorífico, máquina de lavar, computador, internet e outros “luxos”.
O gerador do ximbeco, na realidade, dá para alimentar uma aldeia inteira… se aldeia houvesse, o que não é o caso. Tal despropósito traduz-se num consumo absurdo de 70 litros para 12 horas de funcionamento (felizmente que o gasóleo aqui é uma pechincha e não sou eu que o vou pagar), o que obriga a incluir na rotina diária a ida ao posto de abastecimento, geralmente após o jantar, porque durante o dia não há tempo para estar em “filas” do tipo tudo-ao-molho-e-fé-em-Deus-todos-ralham-ninguém-tem-razão-e-entretanto-o-gasoile-acaba-antes-que-chegue-a-minha-vez. À noite é tudo mais calmo, mas por vezes há que percorrer todas as capelinhas, que é como quem diz os sete ou oito postos de abastecimento da avenida principal, até encontrar um que reúna a difícil combinação dos seguintes acasos: o posto estar aberto, ter gasóleo, abastecer bidons e não apenas depósitos de viaturas, a bomba não estar avariada e haver energia para a bomba poder abastecer.
Quando as tardes trazem trovoadas violentas e prolongadas, como tem sucedido nos últimos dias, o gerador vai abaixo e, durante algumas horas, fica-se sem energia, o que significa ficar também sem água. A prudência aconselha ter sempre um reservatório cheio para que, nestas situações, seja possível ter o banho de final de dia, nem que seja de caneco. Depois, já escuro e vestida para jantar, quando não me abandono no deslumbramento das violentas manifestações atmosféricas, aproveito o que existe de bateria no portátil para escrever algumas linhas, assistir a um episódio de uma qualquer série, ou ouvir um pouco de música.
No regresso do jantar, o São Pedro já se acalmou ou apenas resmunga em surdina. Volta a ligar-se o gerador e ainda há tempo para uma ou duas horas de internet para pôr a conversa em dia, porque as chamadas telefónicas são caras e estão sempre a ir abaixo. Quando o cansaço é grande e o apelo à posição horizontal é forte, o caminho é directo para a cama. Confirmo a presença da lanterna na mesa de cabeceira… depois, mais um pouco de música, mais alguns apontamentos rascunhados no caderno, umas páginas de leitura, ou um filme que por vezes o sono não permite ver até ao fim. À meia-noite o ximbeco dissolve-se na escuridão em volta. Mimetizam-se também os guardas que se acomodam no abrigo junto ao portão, com as companheiras de todas as noites (a lanterna pousada ao seu lado e a kalash pendurada no ombro). A luz voltará com o raiar do dia seguinte.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Diz que é uma espécie de introdução...

Do meu ximbeco avista-se o fim do mundo. É uma das coisas que esta terra nos permite: olhar longe, muito longe, sem que nada nos corte a profundidade. Ter à frente uma paisagem que se estende até à linha do horizonte, lá no fim do mundo. Em Portugal só consigo ter esta sensação quando me encontro à beira-mar, mas aqui basta sair da cidade para ter o infinito ao alcance de um olhar.

E apesar de todas as recomendações, arrisco ignorar uma das medidas básicas de prevenção do paludismo (evitar a hora do pôr-do-sol) e gosto de me sentar no degrau do alpendre a ver a luz do dia esbater-se, até ser engolida lá para os lados do fim do mundo. Agora, em plena época das chuvas, as nuvens geralmente dominam o horizonte e o entardecer faz-se em estranhos tons de madrepérola. Mas também há aqueles dias que entardecem claros e então a luz afoga-se num mar de vermelho intenso.

Aqui, apesar de estarmos no verão (a estação dos dias mais longos), a noite chega bastante cedo e instala-se rapidamente. O crepúsculo é muito curto e, em pouco tempo, as cores que dominam o dia (o verde da paisagem, misturado com o vermelho da terra, encimados por um céu ora azul ora cinzento) dão lugar a um negro que seria absoluto, não fosse o invulgar número e brilho das estrelas que povoam este céu. Nas noites de lua cheia há uma luz prateada, intensa, que desobriga do uso da lanterna e permite adivinhar cada árvore e cada arbusto que se erguem sobre o capim na vastidão que rodeia aqui o ximbeco.

Mas se esta imensurabilidade me transmite uma enorme paz e me preenche de uma forma que é difícil descrever e explicar, também me faz sentir a distância física que me separa das pessoas queridas que ficaram para lá da linha do horizonte e com as quais me habituei a partilhar sentimentos e vivências. A vontade de continuar a partilhar as experiências do dia-a-dia, e tudo o mais que me der na telha, levou-me a criar este ximbeco virtual. Tanto quanto as contingências da navegação cibernáutica (que aqui são imensas e limitantes) me permitirem, aqui tentarei deixar, entre outros pensamentos e desabafos, alguns apontamentos e sentimentos sobre esta aventura de viver e trabalhar numa África mais ou menos profunda, num país ainda lacerado pela guerra, mas que, à sua maneira algo tortuosa e aos poucos, parece querer reerguer-se.