sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A minha aldeia (3)

Enquanto não não há tempo para escrever sobre novas experiências, novos sítios, novas pessoas, aqui fica mais um pouco de reportagem sobre a "minha" aldeia. Dela tenho andado agora mais arredada, o trabalho levou-me até outros locais e outras gentes, que também ocuparam outros espaços no meu coração. Mas estas gentes, esta "avenida pombalina" e estes meninos terão sempre o seu cantinho.

(já dizia Gabriel Garcia Marquez, que "o coração tem mais quartos do que uma casa de putas"... parece que sim...)















segunda-feira, 13 de julho de 2009

Paths to Survival

The Path of Patience

There are paths behind me, now a path before me, the path of patience.
I have been running; my adrenaline is high.
There is no time to slow down;
I am full of energy and excitement, full of dreams and goals.
Yet the path before me sits nestled in a valley’s narrow stream.
It squeezes and presses my body on both sides, forcing me to take only short aggravating meticulous steps.
This, the path of patience, slows down my quick courageous pace.
I am able to conquer, to take hold of mountains in one hand whilst carrying a fortress on my shoulder;
yet, this path seems too hard for me to bear, too slow for me to master.
But let patience have its perfect work, that I may be refined and complete, lacking nothing.

Oh strong and courageous conqueror; give me your skills and boldness!
My path of patience is an overpowering mountain.
I once sat content with my surroundings, with all my variables coloured and placed in line.
I sat to listen to the melodies of each day, the sweet sounds of the heavens, where boredom, who is often so misunderstood, became my dear companion.
But this mountain, this my path to patience, takes me far beyond what my mind wants to know or experience, to birth me outside my comfort zone.
It offers unknown safety, height, developments far beyond my dreams.
This, the path of patience, will test all the fears within me.
Should I then request only meticulous steps to be taken?
Should I request the known and simple way?
But let patience have its perfect work, that I may be flawless and complete, lacking nothing.

You my enemy who tears my soul;
You my enemy who sits and laughs at all my afflictions, setting a snare to entrap me;
You who steals the bread from my table.
There is a path before me, the path of patience.
A path allowing you in, taking the weight off your feet, permitting you to dine before my table.
I know your ways;
you have tormented me for days, yet I must not repay you evil.
I must warm your bed, and set your linen.
Love my enemy?
My heart is full of pain, anger, resting only at the edge of bitterness.
I cannot see beyond you my enemy, I can only see the past behind me, the past blemished and discoloured by your name.
What you have stolen from me, I must now replace with love and in forgiveness fill your grail.
But let patience have its perfect work, that I may be whole and complete, lacking nothing.

Patience, what a wonderful character you can create within me.
Yet you, Patience, are so easily defeated.
Your path comes in many forms, many faces, many trials.
Sometimes shoes placed upon my feet for a long journey.
Shoes so tight and tattered long before your path ’s complete;
or rain pouring down upon my weary head, washing away my blessed tears of innocence;
A page, a chapter of my life…
But to you, O Patience, I will journey, for you carry such a desirable part of the human being.
Though you may cause my body to be weathered and aged, what beauty you are to behold within my person.
In apathy will I then seek other paths, or let you have your perfect work in me, that I may be refined, flawless, whole, and complete, lacking nothing?

(Mary Grey-Pfeiffer, in: Passages of Life, 2007)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A minha aldeia (2)

A caminho...







e já estamos quase lá.

Long time, no write


Pois é people... quando eu digo que estou no fim do mundo, i really mean it! Aliás chego a ter a sensação de que ultimamente tenho estado mesmo fora do mundo. Lembro-me de em tempos ter dito ao Nuno, um pouco na brincadeira e um pouco a sério, que até nem me importaria de ser uma lostie naquela ilha de ficção que não vem nos mapas e que ninguém consegue encontrar. Acho que não estava muito longe da verdade. A principal diferença em relação à tal ilha é que (teoricamente), daqui posso sair quando quero. Mas acho que isso é possível apenas porque não estou numa ilha… geograficamente falando. Em termos práticos estou mais ou menos aprisionada numa ilha de trabalho que nunca mais acaba, porque aqui trabalhar é um processo complicado, em que cada tarefa demora uma eternidade até que se consiga concluir.

A inicialmente estranha sensação de incomunicabilidade com o mundo deixou de ser assim tão estranha. A internet deixou de ser “o vício dos tempos modernos” para ser “um vício de tempos passados”. Também me habituei a andar sempre com dois telefones. Com um bocado de sorte e de paciência um deles há-de servir para alguma coisa… ou não. Consegui dar os parabéns a um amigo em Portugal que fez anos, com apenas 3 dias de atraso… Estou aqui há 5 meses, mas por vezes sinto-me como se cá estivesse desde o início dos tempos. E até ao fim dos tempos fosse ficar. Ainda acabo por me convencer que aqui também é mundo. Apenas um mundo diferente.

Bem, isto só para dizer que estou de volta… mais ou menos. Porque até final do mês estou “debaixo de água”. Laboralmente falando. E porque, entretanto, uma parte dos meus tempos livres foi adjudicada a uma boa causa… ou uma causa boa... whatever!

quinta-feira, 7 de maio de 2009

A minha aldeia (1)


É a aldeia onde tenho passado a maior parte do meu tempo de trabalho. Fica a cerca 60 km do ximbeco. São 25 km de boa estrada nacional, mais 30 km de estrada secundária com mais buracos do que asfalto e ainda mais 7 km de picada no meio do capinzal. É uma típica aldeia africana, com casas de adobe, chão de terra batida e cobertura de capim. Mangueiras enormes em cuja sombra se reúnem as assembleias e onde se recebem os convidados. Crianças que brincam descalças no terreiro, com brinquedos saídos da sua imaginação. Cabras, cabritos, bois e porcos que se passeiam livremente entre as habitações. Os adultos só se acham até pouco depois do nascer do sol, altura em que partem para a lavra, ou então ao pôr-do-sol, hora a que dela regressam. Os homens trazem as catanas e as enxadas. As mulheres também, e trazem ainda os molhos de lenha à cabeça. Há ainda que arranjar tempo para ir buscar a água na manivela, tarefa em que as crianças também ajudam.

São pobres as mais de duzentas famílias que ali habitam. A lenha é o fogão, o candeeiro de petróleo a clareza, o luando o leito onde pernoitam. São famílias camponesas que tiram o sustento da terra, que cultivam com pouco mais do que as suas mãos. O funge de bombó é o alimento de todas as refeições. Às vezes acompanham com um pouco de peixe ou carne seca, às vezes não acompanham com nada.

Tudo está incrivelmente limpo, os terreiros são varridos diariamente. Ao longo do dia esboça-se um fino tapete de folhas, que o vento faz desprender das mangueiras, mas que as cabras, vorazes, não deixam acumular. As raparigas em idade escolar, que ainda não vão às lavras, dedicam parte do seu horário livre a tarefas domésticas ou fazem os deveres à porta de casa. Os rapazes andam simplesmente por ali, conversando ou atrevendo-se junto das raparigas.

As crianças são alegres, talvez porque apesar da escassez crescem livres. Corpos esguios e ágeis que trepam às mangueiras, rastejam pelos ramos deixando-se depois escorregar para o solo. Os mais velhos reprovam a brincadeira, partir ramos significa menos fruta que há-de vir. Obedientes, de imediato encontram outro divertimento. Com imaginação e engenho constroem os seus próprios brinquedos com os materiais que têm à mão. Latas velhas e caules de bananeira que rapidamente tomam forma de carrinhos e de barcos. Nos dias ventosos, uma folha de mangueira apanhada do chão e espetada num pequeno pau transforma-se em hélice de avião. Lembra-me os moinhos de papel com que em criança costumava brincar à beira-mar. E os meninos-avião correm pelo terreiro, as folhas-hélice girando, girando... Quando vêm o “objecto mágico”… Madrinha, tira uma foto! Todos se apinham, parecendo querer entrar pela objectiva adentro. É preciso explicar que assim não vão caber todos, têm de se afastar um pouco. Lá sai a fotografia. Segue-se a excitação de se verem retratados e depois o retorno às brincadeiras. Lembro-me do título de um livro escolar da minha infância... uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma… é disso que se alimenta a alegria destas crianças. Respiro fundo e desvio o olhar.

Desvio também o pensamento para o trabalho a fazer.
À sombra da mangueira grande ouvem-se as queixas, conhecem-se os anseios, sentem-se as hesitações, adivinham-se os receios e as desconfianças. Reconhecem-se os esperançosos, confiantes no sucesso do projecto, os resignados no seu cepticismo indiferente e os descrentes convictos, cansados de projectos promessa de uma vida melhor. Não sei o que me é mais desconfortável, se a desconfiança, se a expectativa em algo para o que não tenho a certeza de poder contribuir. Dói-me a resignação deles, dói-me a minha insegurança doem-me as certezas e também as incertezas... between a rock and a hard place… é assim que vejo estes homens e mulheres e é assim que me sinto tentada a sentir! Mas aqui não pode haver lugar para a compaixão. Quem se perde na compaixão perde a proficiência, o rumo e até as forças… disseram-me há algum tempo atrás. Mas esta é uma aprendizagem que requer endurance. E em cada regresso a casa não consigo impedir-me de pensar que há os que tiveram a sorte de nascer no lado certo da vida e os que tiveram o azar de nascer no lado oposto.

E tomada da frivolidade bacoca dos privilegiados também não consigo impedir-me de pensar o quanto a minha aldeia é bonita.


(quando a net o permitir alargo a reportagem fotográfica)

sábado, 2 de maio de 2009

O ximbeco e arredores

A estrada para o ximbeco:

Ao virar da última curva:

A chegada:


O humilde quartinho:

O pátio:

O bicho "papão":

Lá fora também se trabalha:

O resto é paisagem:

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Papeando

- Oi camba, lá tem maca?
- Yah!... diz que engomaram um muadié...

? :s ?

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Sim... aqui também se trabalha

A última semana foi passada no campo do nascer ao pôr-do-sol. Levantar de madrugada, passar o dia na aldeia, regressar com o pôr-do-sol e, no total, pelo menos três horas de “estrada”.

Os técnicos que trabalham comigo não almoçam, pelo que eu também não o devo fazer. Além disso também não posso comer na presença dos camponeses. Seria falta de respeito, uma vez que estes também não almoçam. Significa isto que durante quatro dias consecutivos não almocei. Depois de um pequeno-almoço madrugador, a refeição seguinte (geralmente uma sandocha de queijo e um sumo) só vem depois das 17 ou 18 horas, já no carro, na viagem de regresso a casa. Mas sim… sobrevivi a esta espécie de Ramadão.

Apesar do calor também não convinha beber água (sim, exactamente, por causa disso mesmo… ingerir implica ter de a verter algum tempo depois, sendo que eu não saberia minimamente onde o fazer). Por isso, no final do dia, entre o regresso e a hora do jantar há que dar cumprimento à DDR do precioso líquido (a garrafinha de 1,5 litros).

Quinta feira à noite foi o alívio do dever cumprido.

no regresso... east, west, home's best...

Esta semana está a ser mais tediosa: pôr toda a informação na base de dados. Já estou enjoada de olhar para folhas de excel cheias de quadradinhos e números. Por estes dias, aqui no ximbeco não reina a paz do costume. Andam a fazer obras e a barulheira lá fora não ajuda à concentração. Sinto vontade de dar uma volta para desentorpecer as pernas e o cérebro. Ainda me aventurei até ao portão mas o sol tórrido fez-me desistir. Respirei fundo, enchi os olhos com as cores da paisagem e voltei para a monotonia das paredes brancas e das células do excel.

Aqui é sempre difícil arriscar um passeio pedestre um pouco mais longínquo, porque corre-se o risco de ficar esturricado com o sol, ensopado até aos ossos pela chuva ou mesmo carbonizado por um raio. Por isso o impermeável, o guarda-chuva, o chapéu para o sol, os óculos escuros e o protector solar são amigos inseparáveis. E uma mochila de tamanho suficiente para levar tudo isso e mais a garrafa de água. Acho que hoje vamos ter um mix… já conheço aquelas nuvens de desenvolvimento vertical que se avistam no horizonte e a quantidade de água e de electricidade que carregam.

Bem, pelo menos hoje tenho direito a almoço. Depois volto para o computador. Para a semana volto à aldeia… e ao jejum diurno. Entretanto ainda não decidi qual o sacrifício maior: se o "ramadão" ou se o excel. Valem as contrapartidas: o que a "minha aldeia" me ensina e o aconchego do meu ximbeco.

domingo, 12 de abril de 2009

A primeira visita

Há pouco, o ex-boss e grande amigo C. telefonou a anunciar que, no próximo fim-de-semana, chega a Angola em missão de serviço, e que no domingo fará os 450 km que separam Luanda de Malange para vir almoçar comigo. Fiquei feliz, vai ser bom poder desabafar com alguém. Falar das venturas e das aventuras, ter um ombro onde depositar as desventuras. A seguir vieram as lágrimas do costume. É quando sentimos a proximidade das pessoas queridas que mais nos apercebemos de como nos fazem falta quando estão longe ou ausentes.
Estou feliz aqui, mas faltam-me tantos bocadinhos de mim…

Páscoa

Não fossem as imensas aglomerações às portas das Igrejas, literalmente a abarrotar para a missa das 10h (que aqui começa rigorosa e invariavelmente às 10h45), e as pessoas que circulam pela avenida com os seus melhores trajes (os homens de camisa, calça social e sapato fechado, as “mamãs com os seus trajes garridos, as jovens mais tapadas do que o habitual) e não me lembraria que hoje é Páscoa. Como eu nem gosto de amêndoas e já me desabituei dos chocolates (aqui ainda não chegou a influência suíça ou belga e chocolates só brasileiros… blhec!), também não lhes dou pela falta. Não se oferecem presentes, não há centros comerciais para visitar, nem montras para ver, nem colecções para a nova estação (aqui vai entrar o Outono, mas acho que as colecções são as mesmas ao longo do ano e ao longo dos anos). Por isso, o dia ensolarado convida a desfrutar das maravilhas da mãe natureza. Talvez procurar um pouco de frescura junto às quedas de Kalandula ou nos rápidos do Kwanza. No meu caso com a toilette do costume: jeans, camisa, botas, chapéu, óculos de sol, protector solar 50+ e repelente de mosquitos. E claro a máquina fotográfica. Um domingo igual a tantos outros.
Saudades sim, da família e dos amigos. Pronto, confesso, também algumas saudades de ter uma net que funcione o suficiente para eu me poder comunicar com o mundo.
Para todos uma boa Páscoa, isto é aproveitem o dia o melhor que puderem.

sábado, 4 de abril de 2009

O amigo português

Poucos dias depois da chegada, a procura de um sítio onde pudesse tomar um bom café expresso levou-me ao restaurante do Sr. A., uma das figuras mais idiossincráticas que alguma vez conheci. Foi um caso de amor à primeira vista, mais exactamente à primeira conversa. Este português, nascido transmontano, está em Angola há mais de 50 anos e não quer nem ouvir falar de viver em Portugal, onde apenas vai de férias esporadicamente. Já teve todos os tipos de negócios, possíveis, imaginários e inimagináveis, ao longo da sua vida aqui. É uma personalidade surpreendente, um sobrevivente e um vencedor, para quem “águas passadas, moinhos não movem” (é assim que ele diz). Nunca vai pela cabeça dos outros e segue sempre o seu instinto. Para os negócios tem a ousadia, a sagacidade e a implacabilidade de um predador. Um pouco paradoxalmente, revela uma enorme dose de humanidade, compreensão e até generosidade, Norteando-se por uma ética de integridade pessoal e verticalidade, que lhe granjeou inúmeras e fiéis amizades, bem como o respeito e a admiração de praticamente todos os que o conhecem… que são muitos!... Aqui na região, pelo país fora e até fora de fronteiras. Quem o vê pela primeira vez, não tem o menor vislumbre da magnitude da sua individualidade e do seu ascendente. A sua baixa estatura, a atitude umas vezes alheada outras vezes aparentemente “à toa” sem saber para onde se virar, o andar desengonçado devido às placas de platina e parafusos que o sustentam, o ar frequentemente ofegante e encalorado, a expressão afectuosa de avozinho (adora crianças e as crianças adoram-no), a linguagem cheia de yahs, buééééés e outro calão que nos habituámos a tomar como juvenil, compõem uma figura algo naif, vulnerável até, que não poderia ser mais arredada da realidade.

O Sr. A. adora conversar e é extraordinariamente arguto na avaliação que faz das pessoas que vai conhecendo. Vá-se lá saber porquê, engraçou com o nosso grupo e nota-se que gosta genuinamente de nós. Todos os dias arranja um tempinho para se sentar na nossa mesa, contando histórias do seu passado e até algumas do seu futuro… sim porque aquilo que mete na cabeça haverá certamente de concretizar-se. Às vezes tenho a sensação de que já nos contou praticamente toda a sua vida (incluindo o que para muitos seriam episódios ou factos inconfessáveis…). Depois percebo que, afinal, muito longe disso!… porque a sua vida demoraria uma outra vida, inteirinha, para ser contada. É com um brilho nos olhos que fala dos seus tempos da camanga (acho que, de todas, a sua maior paixão), do chamamento do mato, do gosto pelas caçadas e do vício de ganhar dinheiro. Fala do tempo em que costumava jogar damas ou xadrez com o Mobutu (sim, “o” Mobutu!). Fala das balas que lhe roçaram o corpo e daquela que ainda tem na perna, fruto de um assalto que sofreu e em que achou por bem tentar contra-atacar os gatunos. Diz que nunca sentiu medo, porque sabe que o medo tolhe as pessoas e limita-lhes a sobrevivência. É um homem de muitos lemas e é com convicção que afirma que “à mão não me hão-de apanhar”, acrescentando em seguida que “morrer por morrer, matar até poder”. Confesso que, ultimamente, começo a ficar um pouco preocupada comigo mesma, porque ouço estas histórias e acho tudo a coisa mais normal e natural do mundo.

O nosso amigo tem alguns tiques engraçados e muito próprios. Gosta de bater com as notas na mesa, como um jogador de sueca faz com uma vaza proveitosa. Quando janta sozinho faz um brinde a si mesmo tocando na garrafa com o seu meio copo de vinho tinto. Até há alguns dias atrás, fazia à mão, e em poucos segundos, contas de centenas de dólares e depois tirava a prova dos nove… dava sempre certo. Não usava a calculadora porque, segundo dizia, demorava mais tempo. Agora adquiriu um sistema informatizado para processar os pedidos e tirar as contas. Diz que é um bom investimento, porque os empregados não tomavam nota de grande parte das coisas que os clientes consumiam, o que se traduzia num prejuízo considerável. De início ia mudando de empregados, mas desistiu porque percebeu que não valia a pena. Mantendo os mesmos aprende a conhecer-lhes as manhas e as fraquezas e torna-se mais fácil controlar as coisas. Também sabe que não vale a pena querer ensinar-lhes muitas coisas ao mesmo tempo, porque eles ficam baralhados e nervosos e depois então é que trocam tudo. O restaurante é caro e a maioria dos clientes que lá vão costumam ser exigentes (eu diria mesmo implicativos), reclamando de tudo e mais algumas botas, o que faz com que os empregados fiquem com medo de atender às mesas, começando a empurrar a tarefa de uns para outros. Então é que os clientes se passam mesmo, porque desesperam com a espera para serem atendidos. A seguir é o Sr. A.. que se passa com os empregados chamando-lhes coxos e aleijados e outros impropérios. Os reclamantes riem-se e lá se acalmam conformados pois, na realidade, não têm outro remédio. É um filme todas as noites. Na cozinha, onde trabalham quatro chefs e alguns ajudantes, quem tenta impor a ordem é a patroa, através de peculiares dinâmicas de grupo que lhe valeram o cognome de “A Faz Barulho”. Isso os empregados aprenderam depressa, pois há dias dizia um deles: “A Dona faz Barulho já voltou das compras em Luanda…”.

Como bom negociante, o Sr. A.. sabe que o bom negócio é aquele que é proveitoso para ambas as partes (N´Gola dixit). A troco de uma fidelização da nossa parte garante-nos preços mais acessíveis que nos permitem ir diariamente ao restaurante tomar o mata-bicho e o jantar. Quando é necessário também nos fornece as quantias necessárias para as restantes despesas. Tudo é pago ao mês por transferência entre balcões portugueses. Transferir regularmente dinheiro de Portugal para uma conta de cá é um processo complicado e caro, porque não é possível fazê-lo através da internet e os bancos envolvidos cobram taxas que são o abuso que todos conhecemos... já para não falar que, aqui, com a enormidade de vezes que o banco não funciona porque o sistema está em baixo, ter o dinheiro no banco ou não ter dinheiro vai dar no mesmo.

O Sr. A. parece conhecer a solução para todos os pequenos e grandes problemas do quotidiano e, até do tempo de que não dispõe, consegue sempre roubar um bocadinho para nos dar uma ajuda quando necessário. Também gosta de nos fazer ver a realidade assim como que através de um prisma invertido, com observações por vezes pouco ortodoxas e que vão muito além do que a nossa lógica imediata alcança. Dentre os seus (muitos) lemas de vida há um, muito curioso, que ele repete com frequência: “Quem trabalha muito fica sem tempo para poder ganhar dinheiro”. Tenho andado a pensar nisto e ainda não concluí se se trata de uma verdade universal, mas já percebi que aqui funciona assim (de onde se depreende que ainda não é desta que vou ficar rica!). Num país de oportunidades, estas escapam-se ou passam despercebidas aos que andam sempre muito ocupados. Por isso, o Sr. A. diz que está farto de estar preso no restaurante, que lhe exige mais de 16 horas de trabalho e atenção diários, não lhe deixando disponibilidade para mais nada… nem para pensar. O que gosta mesmo é de ir para o mato e ficar por lá semanas. Aí tem tempo e paz de espírito para planear os negócios. Tem saudades dos diamantes, da casa no Cafunfo e das caçadas nocturnas com os compinchas. Já foi atacado e ferido por uma onça e fala de cobras surucucu e de jacarés, como quem fala de moscas e de melgas. Frequentemente o olhar fixa-se em sítio nenhum e esboça um sorriso simultaneamente nostálgico e prazeiroso. Por momentos, parece ter-se transportado para os locais que, entusiasmado, propõe levar-nos a conhecer. Ou para o passado relativamente recente em que (contado por terceiros e confirmado pelo próprio) usava o cabelo comprido amarrado num puxo e, no tornozelo, uma pulseira de ouro com diamantes... e tinha um macaco chamado caga-à-toa, que gostava de lhe roubar os diamantes e escondê-los nas bochechas. São breves momentos de fuga para, de seguida, com uma palmada na mesa, voltar à realidade das suas 16 horas a controlar mesas e empregados. Levanta-se e vai ao que tem de ser… por agora.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O intruso nocturno

Já passava das 23 horas, estava eu em vale de lençóis, os grilos grilavam como habitualmente, e eu pronta para viajar para o país dos sonhos. Subitamente um grande alarido lá fora...
- Mata, mata!... Está a fugir para ali!... Atira!...
Pelo meio sons de qualquer coisa a bater...
Sentei-me na cama a tentar perceber o que se passava, o coração a bater forte. Aconselharia a prudência a que eu me mantivesse às escuras e me barricasse na casa de banho. Mas já dizia o outro que a curiosidade matou o gato e lá agarrei na lanterna que dorme na minha cabeceira e, à falta de um colete à prova de bala, saí para o quintal mesmo de pijama e chinelos. Na esquina do bloco de quartos, vejo os guardas dessa noite, o Filipe que batia furiosamente com um pau no chão vociferando algo que entretanto eu já nem percebia e o Cardoso virado para ele apontando a kalash. Recolhi-me novamente, respirei fundo três vezes e voltei a abrir a porta. Lá me saiu a pergunta retórica:
- Tudo bem por aí?...
(retórica e ridícula, direi eu…).
- Matámos dôtora, matámos!
- Mataram??!!!??
- Sim, matámos a cobra!

Ah!... respirei novamente, acho que de alívio, não sei bem. Lá me aproximei o mais que consegui, pois com a escuridão o melhor era jogar pelo seguro. Apontei a lanterna, o bicho já ensanguentado e meio estripado ainda se mexia.
- Cobra, aqui? E mataram mesmo? Está mesmo morta?
- Sim, sim. Eu mesmo matei… com o pau. O Cardoso queria atirar nela mas estava muito escuro e não dava…

Foi a primeira vez que ouvi falar em matar cobras com rajada de metralhadora, mas pronto, se calhar também dá.
Depois de mais dois dedos de conversa (sobre cobras e outras feras) lá voltei para a camita, não sem antes vedar a fresta por baixo da porta e entalar o melhor que pude a rede mosquiteira por baixo do colchão. O cansaço acabou por se sobrepor a qualquer receio e em poucos segundos "apaguei".

Aqui fica a foto do bicho tirada na manhã seguinte. Disseram-me que era uma cuspideira, mas como destes bichos a única coisa que sei é que tenho medo deles, por mim pode ser qualquer coisa. Talvez o senhor biólogo me possa dar uma pista...

Eclipse

Eclipse total da internet observado na região do ximbeco, desde há algumas semanas.
Hoje parece que houve uma trégua.
Vamos ver por quanto tempo :P

quarta-feira, 18 de março de 2009

Papeando

#1
De manhã cumprimento os guardas com o habitual:
- Bom dia!
Eles retribuem:
- Sim, sim, obrigado!
- Bom dia, sim!

Mais adiante, já a caminho da cidade para o mata-bicho, cumprimento as pessoas com quem me cruzo na picada:
- Bom dia!
- Obrigado, sim!
- Bom dia!
- Sim! Muito obrigado!

Estranho? Afinal nem por isso. Na língua materna daqui (o kimbundu) o cumprimento matinal Wazekele?, traduz-se à letra para o português como Dormiste bem?
... pois, tem lógica… Sim, sim, obrigado!


#2
Fragmento de conversa, em forma de pedido, que há tempos apanhei no ar:
- Oi camba, cê tem um bizne pa mim bumbar?

(esta é de quem a apanhar...)


segunda-feira, 16 de março de 2009

País bipolar

1 litro de gasóleo custa o equivalente a cerca de 30 cêntimos.
1 garrafa de água mineral de 1,5 litros custa o equivalente a aproximadamente 2 euros.

Já estive mais longe de beber gasóleo!

domingo, 15 de março de 2009

Retalhos da vida no ximbeco

Como facilmente se adivinha, muitas das coisas certas na Europa, não o são em África. Por exemplo: água, energia eléctrica, recolha de lixo, etc. Na cidade, a maioria das casas não possui água canalizada (a rede de abastecimento foi quase totalmente destruída durante a guerra e a reabilitação só agora está a ter início) e os cortes de energia são constantes e prolongados. No ximbeco não existe água nem energia da rede. A energia está a poucas dezenas de metros e diz-se que talvez chegue aqui dentro de um par de meses. Até lá, vale o gerador. A água, penso que nem dentro de uma par de décadas aqui chegará. Para já existe um furo e uma electrobomba. Não se está mal, desde que não falte o gasóleo… o gasoile, como se diz por aqui.
Gasóleo para o gerador significa, em linguagem da Europa, energia para fazer funcionar a bomba de água (ou seja água nas torneiras e no duche), luz, ar condicionado, frigorífico, máquina de lavar, computador, internet e outros “luxos”.
O gerador do ximbeco, na realidade, dá para alimentar uma aldeia inteira… se aldeia houvesse, o que não é o caso. Tal despropósito traduz-se num consumo absurdo de 70 litros para 12 horas de funcionamento (felizmente que o gasóleo aqui é uma pechincha e não sou eu que o vou pagar), o que obriga a incluir na rotina diária a ida ao posto de abastecimento, geralmente após o jantar, porque durante o dia não há tempo para estar em “filas” do tipo tudo-ao-molho-e-fé-em-Deus-todos-ralham-ninguém-tem-razão-e-entretanto-o-gasoile-acaba-antes-que-chegue-a-minha-vez. À noite é tudo mais calmo, mas por vezes há que percorrer todas as capelinhas, que é como quem diz os sete ou oito postos de abastecimento da avenida principal, até encontrar um que reúna a difícil combinação dos seguintes acasos: o posto estar aberto, ter gasóleo, abastecer bidons e não apenas depósitos de viaturas, a bomba não estar avariada e haver energia para a bomba poder abastecer.
Quando as tardes trazem trovoadas violentas e prolongadas, como tem sucedido nos últimos dias, o gerador vai abaixo e, durante algumas horas, fica-se sem energia, o que significa ficar também sem água. A prudência aconselha ter sempre um reservatório cheio para que, nestas situações, seja possível ter o banho de final de dia, nem que seja de caneco. Depois, já escuro e vestida para jantar, quando não me abandono no deslumbramento das violentas manifestações atmosféricas, aproveito o que existe de bateria no portátil para escrever algumas linhas, assistir a um episódio de uma qualquer série, ou ouvir um pouco de música.
No regresso do jantar, o São Pedro já se acalmou ou apenas resmunga em surdina. Volta a ligar-se o gerador e ainda há tempo para uma ou duas horas de internet para pôr a conversa em dia, porque as chamadas telefónicas são caras e estão sempre a ir abaixo. Quando o cansaço é grande e o apelo à posição horizontal é forte, o caminho é directo para a cama. Confirmo a presença da lanterna na mesa de cabeceira… depois, mais um pouco de música, mais alguns apontamentos rascunhados no caderno, umas páginas de leitura, ou um filme que por vezes o sono não permite ver até ao fim. À meia-noite o ximbeco dissolve-se na escuridão em volta. Mimetizam-se também os guardas que se acomodam no abrigo junto ao portão, com as companheiras de todas as noites (a lanterna pousada ao seu lado e a kalash pendurada no ombro). A luz voltará com o raiar do dia seguinte.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Tempestade rima com saudade

As minhas noites são sinfonias de grilos e as madrugadas recitais de passarada. Mas esta noite substitui-se-lhes a tempestade. Aqui há muitas nesta altura do ano, mas como a de ontem ainda não tinha visto. A chuva, que se adivinhava pelo calor sufocante sentido ao longo da tarde, chegou já de noite, tardia em relação à hora habitual. E nessa urgência do tempo coarctado parece querer derramar-se toda de uma vez, martelando violentamente os telhados e alpendres. A este martelar só se sobrepõe o ainda mais violento trovejar. Os relâmpagos desofuscam a noite em redor, qualquer que seja a direcção em que se olhe. O trovão que se lhe segue faz estremecer a paisagem ainda aclarada. E eu estremeço também. É um espectáculo magnificente mas intimidante que, sentindo-me pequenina, aprecio por detrás da janela. Quando a chuva abranda e a trovoada se afasta um pouco, saio ao alpendre, fecho os olhos, sinto a humidade no rosto e inspiro profundamente aquele cheiro a terra molhada que, em Portugal, só se sente após uma chuvada de verão. A intensidade volta a aumentar e eu volto a recolher-me por detrás da janela. Fecho as cortinas e ajeito a rede mosquiteira em redor da cama. Hoje não se ouvem os grilos e não sei se amanhã a passarada me irá acordar. Sei que os buracos na estrada de terra batida, que conduz ao ximbeco, vão estar mais largos e mais profundos e as habituais poças de água vão estar transformadas em autênticos lagos. Não sei se a estrada vai conseguir permanecer transitável até ao final das chuvas... Os chineses que trabalham na obra aqui ao pé já abriram mais uma passagem onde antes era capim... talvez por aí se circule mais facilmente. A mente divaga cada vez mais... os pensamentos também são como as cerejas... as pálpebras pesam mais e mais. Adormeço com o timbalar da chuva no telhado, mesclado a espaços pelos trovões que ainda ecoam, agora mais longínquos e mais suavizados. O meu último pensamento deste dia (neste caso desta noite) é para vocês. Sorrio, as glândulas lacrimais agitam-se… e escapa-se uma gotinha de saudade. Até amanhã.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Dia Internacional

Ontem foi Dia Internacional da Mulher. Aqui, como em quase todos os países de inspiração socialista (ou whatever) dá-se grande ênfase a este tipo de datas e o dia é de tolerância ao trabalho, ou seja, uma espécie de feriado. As diversas estações de rádio dão o devido destaque à data, com referências nos noticiários e dedicatórias de músicas às mulheres. A comunidade de cinquenta e muitos médicos cubanos aqui residente também se reuniu para uma festa evocativa, que incluía leitura de poemas dedicados às mulheres.
Como a data coincidiu com um domingo, para que esta não passasse despercebida, a tolerância foi transferida para hoje, segunda-feira. Tivemos assim um feriado inesperado. Na chegada à cidade para tomar o pequeno almoço, vejo as zungueiras que iniciam o dia com o pregão de todos os dias, as quitandeiras que montam a banca na Xauande à hora de todos os dias, uma mulher que, no café, lava o chão de joelhos, como todos os dias. Estas mulheres adquiriram uma igualdade no direito à luta pela sobrevivência, mas esta é uma luta em que elas carregam tudo: carregam a criança às costas, muitas vezes carregam outra dentro da barriga, carregam cargas para a venda do dia, carregam o sol na cabeça quando sai e retornam com ele, carregam a ingratidão do marido com os copos, carregam as lamentações das crianças, carregam, carregam, carregam…
Dia Internacional do quê?

sexta-feira, 6 de março de 2009

What else?

A quem possa interessar... Cortei o cabelo! O crime capilar foi perpetrado no Salão de Beleza Rainha NGinga (where else?), por um simpático jovem que não sabendo muito bem o que fazer , não sei se com a tesoura ou com o meu cabelo, ia seguindo divertido as minhas indicações (um pouco mais aqui, um pouco mais desbastado aí,… agora a franja para aquele lado…). Pelo espelho à minha frente, constatei que a restante actividade do salão foi parando, as cadeiras viraram-se na minha direcção e nos rostos iam-se definindo sorrisos divertidos.
Quando me pareceu que o escortanhanço já permitia um arejamento satisfatório, pronunciei-me:
- Yah, está bom assim!
O rapaz simpático abriu um pouco mais os olhos fazendo subir as sobrancelhas e perguntou:
- Yah? Fica assim? Está pronto?
Soltou uma risada, rectificando logo de seguida para um ar entendido:
- Yah! Pois… Lá no Brasil gostam do cabelo assim!”
- [Yah, jóbem, acho que a tua gorjeta vai ser um par de cotonetes!]

(...)

Na segunda ida ao DEFA (Departamento de Estrangeiros e Fronteiras):
- Boa tarde… estivemos cá há umas semanas a dar conhecimento da nossa presença aqui, não sei se está recordado… Agora viemos para esclarecer uma questão que nos foi levantada relativamente aos nossos vistos de permanência…
Perante o ar de incompreensão, tiramos os passaportes e fez-se luz:
- Ah, sim… vocês são aqueles espanhóis que estão cá…
- [Yah! Por supuesto! o meu passaporte é espanhol e tudo! :p]

(...)

Estaciono o carro na avenida, salto para o chão, ponho o chapéu na cabeça porque o sol aqui quando nasce é para matar, ajeito os óculos escuros, coloco a bolsa à cintura e dirigo-me ao interior do mercado municipal. Os meus ouvidos captam qualquer coisa do género:
- You like timber (acho que se refere à minhas botas...)... yah... american!
[Bem... pelo menos aqui ia de boca fechada]

What Else?!

quarta-feira, 4 de março de 2009

A primeira amiga

No dia seguinte ao da minha chegada deram-me uma amiga. Para além de primeira amiga, a Fefa foi também o primeiro capítulo de um manual de sobrevivência, ainda em aprendizagem, agora já com a ajuda de outros amigos. Aqui as pequenas coisas do dia-a-dia não são fáceis para um europeu recém chegado. Há situações e circunstâncias com as quais não sabemos imediatamente como lidar, pequenos problemas cuja solução para nós não é óbvia, obstáculos cujo contorno é pouco claro e, embora as pessoas aqui sejam no geral educadas e amáveis, vêem-nos sempre como estranhos. O código social e cívico entre as pessoas de cá não é aplicável aos de fora. A companhia assídua da Fefa nas primeiras semanas possibilitou-me uma percepção mais rápida das nuances desse código e, simultaneamente, deu-me tempo para poder ser olhada como sendo um pouco mais daqui.

Com a minha nova amiga, fiz as primeiras incursões pelas lojas e mercados da cidade, aventurei-me por estradas secundárias e picadas no meio do capim para conhecer mais fim de mundo, adquiri conhecimentos e tive novas experiências gastronómicas, aprendi a mostrar-me confortável em situações desconfortáveis e também conheci pessoas, algumas das quais novos capítulos de um manual de sobrevivência mais alargado. Aqui, há fortes relações de interdependência e de influências, pelo que conhecer pessoas é fundamental para que a permanência decorra sem grandes sobressaltos. A Fefa não o diz, mas percebe-se que o sabe.

Dona Fefa é o que aqui se chama uma “mamã”, tratamento de respeito aplicado geralmente a mulheres mais velhas, mães de família. Na realidade, a minha amiga é até mais nova do que eu, mas as pessoas dirigem-se-lhe com um "Bom dia mãe!", “Passar bem, mãezinha!”, “São duzentos kwanzas, mamã…”. A mim costumam chamar-me de "irmã", até em situações menos comuns … “irmã, vais ter de levar multa…”, disse-me uma vez um polícia (depois, e após argumentação da “mamã”, acabou por reconhecer que não havia motivo para multa alguma). Os putos da rua chamam-me geralmente de “madrinha”… “madrinha, dá 10 pró pão!”, “madrinha, não queres lavar carro?”.

A Fefa, além de ser uma mulher muito inteligente, tem a sabedoria, o espírito prático e demais argumentos de quem soube sobreviver a tempos difíceis. Durante a guerra, o serviço a que pertencia deixou de funcionar e, como a maioria das pessoas, ficou sem emprego. Foi necessário garantir a sobrevivência e o sustento da família através de expedientes que muitas vezes representavam risco de vida. Arcou com esse risco nas muitas vezes que saiu da cidade cercada para adquirir, em locais por vezes distantes, bens de consumo que trazia para vender. Hoje, com uma vida estável, raramente fala do passado, é alegre e distribui generosidade. Continua a ser o suporte de uma numerosa família alargada e ainda arranja disponibilidade e amizade para dedicar a desconhecidos que acabam de lhe aterrar no colo vindos de outro continente.

terça-feira, 3 de março de 2009

Material escolar

De manhã, ao sair do ximbeco em direcção à cidade, cruzo-me com as crianças dos bairros periféricos que se dirigem para a escola primária, vestidos com as suas batas brancas, as mochilas às costas e, sobre a cabeça ou debaixo do braço... uma cadeirinha de plástico. Alguns não transportam cadeira. Alguns levam os cadernos na mão e protegem-nos da chuva sob as camisolas.

segunda-feira, 2 de março de 2009

O funcionário

No restaurante onde todos os dias vou jantar, trabalha (para além dos vários cozinheiros e empregados de mesa) um matulão de um metro e noventa e uns noventa quilos, com um ar entre o afável e o molengão, que fala muito baixinho, e cujo horário de trabalho é das sete da manhã até à meia-noite, de domingo a sábado. Desde que aqui cheguei ainda não o vi ter folga. Troca uma lâmpada quando é necessário, liga o gerador quando há corte de energia, sintoniza o televisor num qualquer canal desportivo ou noticioso, ocasionalmente tira um café para um dos colegas levar a uma mesa e esporadicamente vai à rua comprar qualquer produto em falta. Tarefas que ocupam uma parcela insignificante do que parece ser o seu horário de trabalho. O resto do tempo, passa-o na conversa com os colegas, com alguns clientes mais habitués ou simplesmente sentado numa das mesas a jogar no computador. Depois de me questionar sobre a utilidade de tal figura no estabelecimento, concluí que poderia tratar-se de um protegido adoptado pelos patrões, provavelmente um órfão filho de antigos empregados, situação comum por aqui. Nada! As reais atribuições do funcionário compreendi-as ontem à hora do jantar, quando um cliente, depois de efectuar uma despesa considerável, tentou sair de fininho sem pagar a conta. Os sons vindos da cozinha não deixavam margem para dúvida sobre o que estava a acontecer. Os clientes, esses após um breve virar de cabeça na direcção da cozinha e o esboçar de um sorriso entendido, voltaram a concentar-se no jogo de futebol da liga espanhola que passava na SportTV África. Parece que se tratou apenas de mais um episódio rotineiro, já que, em tais situações, "chamar a polícia só vai dar ainda mais despesa". O indesejável, entretanto despejado (não sei muito bem se inteiro ou aos pedacinhos) pela porta dos fundos, não voltará certamente a entrar no estabelecimento… garantiram... e eu acredito. As coisas aqui são mesmo assim, mas... porra, não consigo parar de pensar naquilo!

sábado, 28 de fevereiro de 2009

A cidade

Embora capital de Província, a cidade é pequena e quase pacata. Não fosse o caos que é a circulação na estrada e nas ruas, e seria mesmo uma cidade pacata. A chegada aos limites da cidade (para quem vem da direcção de Luanda), além de anunciada pelo enorme cartaz de boas-vindas, adivinha-se pela súbita entropia, que cresce ao longo de cerca de 5 km de sanzalas periféricas e atinge o auge à entrada da zona urbana propriamente dita. Aí aglomeram-se modernos postos de abastecimento de combustível abertos recentemente, armazéns de venda a grosso onde se apinham quitandeiras e zungueiras com os alguidares à cabeça e as crianças às costas, dezenas de homens e rapazes com carros de mão ou bicicletas que transportam cargas de todas as naturezas, dimensões e feitios, peões que atravessam a estrada carregando na cabeça pilhas de colchões para vender no Xauande.

O mercado do Xauande, que se estende do lado esquerdo da estrada, é uma versão local da feira do Relógio. É um típico mercado africano a céu aberto onde, lado a lado, se vendem móveis e vegetais frescos, telemóveis e peixe seco, roupas, mercearia, plásticos, fuba de mandioca, pneus, pão, alimentos estranhos como lagartas secas… ou, como resumem as pessoas de cá, “no Xauande vende-se de tudo, menos pessoas”. Os artigos encontram-se expostos no chão, em alguidares ou em bancas improvisadas. As condições são precárias tanto para quem vende como para quem compra e as condições de higiene… é melhor não pensar nisso! Nesta altura do ano, a visita ao Xauande aconselharia o uso de galochas e, nos dias piores, talvez um veículo anfíbio… diria eu, até ver a maioria das pessoas de havaianas e outras mesmo descalças. Para felicidade de toda a gente está a iniciar-se a construção de um novo grande mercado mais funcional e higiénico.

À frente começa a avenida principal, ladeada por pequenas lojas chamadas de “comércio geral” (quer isto dizer que vendem tudo e mais alguma coisa, embora, com frequência, não tenham aquilo que no momento queremos encontrar), algumas farmácias onde, entre outras coisas, se podem adquirir os cartões para recarga de telemóveis, o mercado municipal onde, para além das expectáveis frutas e hortaliças, se podem também comprar mercearias produtos de drogaria, artigos eléctricos, acessórios informáticos, etc.

Os grandes armazéns e lojas de comércio geral são, quase invariavelmente, propriedade de indianos ou libaneses, que vendem produtos alimentares de origem portuguesa, brasileira ou libanesa e quinquilharias diversas de fabrico chinês. Alguns armazéns vendem também motorizadas, motas e geradores.

Avançando um pouco mais pela avenida principal, chegamos à zona onde se localizam agências bancárias, operadoras de telecomunicações e outras empresas fornecedoras de serviços. Aqui há sempre uma grande concentração de polícias e seguranças não militarizados. As agências bancárias funcionam "quando há sistema”, isto é, de vez quando. Depois de aqui ter chegado, o banco do qual me fiz cliente esteve uma semana inteira com o sistema em baixo. Agora está outra vez sem sistema. Quando não há sistema, o banco não abre ao público e os funcionários ficam de folga e passam o dia no café ou a passear. Daqui se conclui que, aqui, ser empregado bancário é um excelente emprego e, no nosso caso, ter sempre uma reserva de kumbú no bolso é uma prática recomendável.

Nesta zona da avenida há também prédios de habitação, na sua grande maioria degradados ou semi-destruídos (alguns foram-no ainda antes de se encontrarem concluídos). Estas testemunhas de guerras anteriores dão uma nota de desolação ao bulício da hora de ponta que, aqui, é mais ou menos por volta das três da tarde. Nas ruas secundárias, povoadas de habitações mais pobres e lojas de pequeno comércio, é difícil circular. Ou são autênticas picadas com buracos, pó, lama e muitos saltos e saltinhos, ou então as obras de reconstrução (empreitadas chinesas e brasileiras) obrigam-nos a desvios e percursos imprevistos.

Ao longo da avenida existem polícias sinaleiros em cima de pequenos palanques pintados de branco e vermelho, cujo movimento das mãos, enluvadas de branco, faz lembrar o de uma dançarina oriental e que fazem acompanhar a sua sinalética de um frenesim de apito que nos deixa imediatamente stressados, com receio de ter infringido alguma regra do código local.

A avenida termina no simpático Largo 4 de Fevereiro, hoje quase totalmente recuperado, com bonitos edifícios ocupados por serviços oficiais e um agradável jardim com palmeiras e espaços de descanso e lazer na sombra de caramanchões de buganvílias. Aqui, já ficou para trás a agitação das zonas comerciais e respira-se uma tranquilidade amena.

Logo a seguir encontra-se, de um lado, a “catedral”, uma igreja de tipo colonial também restaurada e, do outro lado, uma zona residencial constituída por moradias com bonito traço, muitas degradadas ou destruídas, outras recuperadas e com aspecto muito simpático. Numa zona um pouco mais afastada da avenida, há um supermercado moderno pertencente à principal cadeia de supermercados do país.

Finalmente, já na estrada de saída da cidade, encontra-se o Hospital Regional, recentemente reconstruído. Nos jardins do hospital há sempre uma multidão de pessoas. Doentes, familiares e acompanhantes sentam-se nos muretes dos canteiros juntamente com zungueiras que vendem bananas, abacaxis, sabonetes, champôs, pastas dentífricas, e tudo o mais que se possa transportar num alguidar à cabeça. Também se vêem alguns cães que correm e saltam entre os canteiros. Para além deste Hospital Regional existe, no Bairro da Carreira que fica para lá do Xauande, na outra ponta da cidade, um Hospital Municipal novinho em folha que, à semelhança do Hospital Regional, está cheio de caracteres chineses por tudo o que é sítio.

Depois da saída da cidade, em direcção a zonas mais interiores do país, permanece um desconhecido por explorar a que nos referimos como “lá para os lados das Lundas"... irei lá num futuro próximo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Diz que é uma espécie de introdução...

Do meu ximbeco avista-se o fim do mundo. É uma das coisas que esta terra nos permite: olhar longe, muito longe, sem que nada nos corte a profundidade. Ter à frente uma paisagem que se estende até à linha do horizonte, lá no fim do mundo. Em Portugal só consigo ter esta sensação quando me encontro à beira-mar, mas aqui basta sair da cidade para ter o infinito ao alcance de um olhar.

E apesar de todas as recomendações, arrisco ignorar uma das medidas básicas de prevenção do paludismo (evitar a hora do pôr-do-sol) e gosto de me sentar no degrau do alpendre a ver a luz do dia esbater-se, até ser engolida lá para os lados do fim do mundo. Agora, em plena época das chuvas, as nuvens geralmente dominam o horizonte e o entardecer faz-se em estranhos tons de madrepérola. Mas também há aqueles dias que entardecem claros e então a luz afoga-se num mar de vermelho intenso.

Aqui, apesar de estarmos no verão (a estação dos dias mais longos), a noite chega bastante cedo e instala-se rapidamente. O crepúsculo é muito curto e, em pouco tempo, as cores que dominam o dia (o verde da paisagem, misturado com o vermelho da terra, encimados por um céu ora azul ora cinzento) dão lugar a um negro que seria absoluto, não fosse o invulgar número e brilho das estrelas que povoam este céu. Nas noites de lua cheia há uma luz prateada, intensa, que desobriga do uso da lanterna e permite adivinhar cada árvore e cada arbusto que se erguem sobre o capim na vastidão que rodeia aqui o ximbeco.

Mas se esta imensurabilidade me transmite uma enorme paz e me preenche de uma forma que é difícil descrever e explicar, também me faz sentir a distância física que me separa das pessoas queridas que ficaram para lá da linha do horizonte e com as quais me habituei a partilhar sentimentos e vivências. A vontade de continuar a partilhar as experiências do dia-a-dia, e tudo o mais que me der na telha, levou-me a criar este ximbeco virtual. Tanto quanto as contingências da navegação cibernáutica (que aqui são imensas e limitantes) me permitirem, aqui tentarei deixar, entre outros pensamentos e desabafos, alguns apontamentos e sentimentos sobre esta aventura de viver e trabalhar numa África mais ou menos profunda, num país ainda lacerado pela guerra, mas que, à sua maneira algo tortuosa e aos poucos, parece querer reerguer-se.