quarta-feira, 18 de março de 2009

Papeando

#1
De manhã cumprimento os guardas com o habitual:
- Bom dia!
Eles retribuem:
- Sim, sim, obrigado!
- Bom dia, sim!

Mais adiante, já a caminho da cidade para o mata-bicho, cumprimento as pessoas com quem me cruzo na picada:
- Bom dia!
- Obrigado, sim!
- Bom dia!
- Sim! Muito obrigado!

Estranho? Afinal nem por isso. Na língua materna daqui (o kimbundu) o cumprimento matinal Wazekele?, traduz-se à letra para o português como Dormiste bem?
... pois, tem lógica… Sim, sim, obrigado!


#2
Fragmento de conversa, em forma de pedido, que há tempos apanhei no ar:
- Oi camba, cê tem um bizne pa mim bumbar?

(esta é de quem a apanhar...)


segunda-feira, 16 de março de 2009

País bipolar

1 litro de gasóleo custa o equivalente a cerca de 30 cêntimos.
1 garrafa de água mineral de 1,5 litros custa o equivalente a aproximadamente 2 euros.

Já estive mais longe de beber gasóleo!

domingo, 15 de março de 2009

Retalhos da vida no ximbeco

Como facilmente se adivinha, muitas das coisas certas na Europa, não o são em África. Por exemplo: água, energia eléctrica, recolha de lixo, etc. Na cidade, a maioria das casas não possui água canalizada (a rede de abastecimento foi quase totalmente destruída durante a guerra e a reabilitação só agora está a ter início) e os cortes de energia são constantes e prolongados. No ximbeco não existe água nem energia da rede. A energia está a poucas dezenas de metros e diz-se que talvez chegue aqui dentro de um par de meses. Até lá, vale o gerador. A água, penso que nem dentro de uma par de décadas aqui chegará. Para já existe um furo e uma electrobomba. Não se está mal, desde que não falte o gasóleo… o gasoile, como se diz por aqui.
Gasóleo para o gerador significa, em linguagem da Europa, energia para fazer funcionar a bomba de água (ou seja água nas torneiras e no duche), luz, ar condicionado, frigorífico, máquina de lavar, computador, internet e outros “luxos”.
O gerador do ximbeco, na realidade, dá para alimentar uma aldeia inteira… se aldeia houvesse, o que não é o caso. Tal despropósito traduz-se num consumo absurdo de 70 litros para 12 horas de funcionamento (felizmente que o gasóleo aqui é uma pechincha e não sou eu que o vou pagar), o que obriga a incluir na rotina diária a ida ao posto de abastecimento, geralmente após o jantar, porque durante o dia não há tempo para estar em “filas” do tipo tudo-ao-molho-e-fé-em-Deus-todos-ralham-ninguém-tem-razão-e-entretanto-o-gasoile-acaba-antes-que-chegue-a-minha-vez. À noite é tudo mais calmo, mas por vezes há que percorrer todas as capelinhas, que é como quem diz os sete ou oito postos de abastecimento da avenida principal, até encontrar um que reúna a difícil combinação dos seguintes acasos: o posto estar aberto, ter gasóleo, abastecer bidons e não apenas depósitos de viaturas, a bomba não estar avariada e haver energia para a bomba poder abastecer.
Quando as tardes trazem trovoadas violentas e prolongadas, como tem sucedido nos últimos dias, o gerador vai abaixo e, durante algumas horas, fica-se sem energia, o que significa ficar também sem água. A prudência aconselha ter sempre um reservatório cheio para que, nestas situações, seja possível ter o banho de final de dia, nem que seja de caneco. Depois, já escuro e vestida para jantar, quando não me abandono no deslumbramento das violentas manifestações atmosféricas, aproveito o que existe de bateria no portátil para escrever algumas linhas, assistir a um episódio de uma qualquer série, ou ouvir um pouco de música.
No regresso do jantar, o São Pedro já se acalmou ou apenas resmunga em surdina. Volta a ligar-se o gerador e ainda há tempo para uma ou duas horas de internet para pôr a conversa em dia, porque as chamadas telefónicas são caras e estão sempre a ir abaixo. Quando o cansaço é grande e o apelo à posição horizontal é forte, o caminho é directo para a cama. Confirmo a presença da lanterna na mesa de cabeceira… depois, mais um pouco de música, mais alguns apontamentos rascunhados no caderno, umas páginas de leitura, ou um filme que por vezes o sono não permite ver até ao fim. À meia-noite o ximbeco dissolve-se na escuridão em volta. Mimetizam-se também os guardas que se acomodam no abrigo junto ao portão, com as companheiras de todas as noites (a lanterna pousada ao seu lado e a kalash pendurada no ombro). A luz voltará com o raiar do dia seguinte.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Tempestade rima com saudade

As minhas noites são sinfonias de grilos e as madrugadas recitais de passarada. Mas esta noite substitui-se-lhes a tempestade. Aqui há muitas nesta altura do ano, mas como a de ontem ainda não tinha visto. A chuva, que se adivinhava pelo calor sufocante sentido ao longo da tarde, chegou já de noite, tardia em relação à hora habitual. E nessa urgência do tempo coarctado parece querer derramar-se toda de uma vez, martelando violentamente os telhados e alpendres. A este martelar só se sobrepõe o ainda mais violento trovejar. Os relâmpagos desofuscam a noite em redor, qualquer que seja a direcção em que se olhe. O trovão que se lhe segue faz estremecer a paisagem ainda aclarada. E eu estremeço também. É um espectáculo magnificente mas intimidante que, sentindo-me pequenina, aprecio por detrás da janela. Quando a chuva abranda e a trovoada se afasta um pouco, saio ao alpendre, fecho os olhos, sinto a humidade no rosto e inspiro profundamente aquele cheiro a terra molhada que, em Portugal, só se sente após uma chuvada de verão. A intensidade volta a aumentar e eu volto a recolher-me por detrás da janela. Fecho as cortinas e ajeito a rede mosquiteira em redor da cama. Hoje não se ouvem os grilos e não sei se amanhã a passarada me irá acordar. Sei que os buracos na estrada de terra batida, que conduz ao ximbeco, vão estar mais largos e mais profundos e as habituais poças de água vão estar transformadas em autênticos lagos. Não sei se a estrada vai conseguir permanecer transitável até ao final das chuvas... Os chineses que trabalham na obra aqui ao pé já abriram mais uma passagem onde antes era capim... talvez por aí se circule mais facilmente. A mente divaga cada vez mais... os pensamentos também são como as cerejas... as pálpebras pesam mais e mais. Adormeço com o timbalar da chuva no telhado, mesclado a espaços pelos trovões que ainda ecoam, agora mais longínquos e mais suavizados. O meu último pensamento deste dia (neste caso desta noite) é para vocês. Sorrio, as glândulas lacrimais agitam-se… e escapa-se uma gotinha de saudade. Até amanhã.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Dia Internacional

Ontem foi Dia Internacional da Mulher. Aqui, como em quase todos os países de inspiração socialista (ou whatever) dá-se grande ênfase a este tipo de datas e o dia é de tolerância ao trabalho, ou seja, uma espécie de feriado. As diversas estações de rádio dão o devido destaque à data, com referências nos noticiários e dedicatórias de músicas às mulheres. A comunidade de cinquenta e muitos médicos cubanos aqui residente também se reuniu para uma festa evocativa, que incluía leitura de poemas dedicados às mulheres.
Como a data coincidiu com um domingo, para que esta não passasse despercebida, a tolerância foi transferida para hoje, segunda-feira. Tivemos assim um feriado inesperado. Na chegada à cidade para tomar o pequeno almoço, vejo as zungueiras que iniciam o dia com o pregão de todos os dias, as quitandeiras que montam a banca na Xauande à hora de todos os dias, uma mulher que, no café, lava o chão de joelhos, como todos os dias. Estas mulheres adquiriram uma igualdade no direito à luta pela sobrevivência, mas esta é uma luta em que elas carregam tudo: carregam a criança às costas, muitas vezes carregam outra dentro da barriga, carregam cargas para a venda do dia, carregam o sol na cabeça quando sai e retornam com ele, carregam a ingratidão do marido com os copos, carregam as lamentações das crianças, carregam, carregam, carregam…
Dia Internacional do quê?

sexta-feira, 6 de março de 2009

What else?

A quem possa interessar... Cortei o cabelo! O crime capilar foi perpetrado no Salão de Beleza Rainha NGinga (where else?), por um simpático jovem que não sabendo muito bem o que fazer , não sei se com a tesoura ou com o meu cabelo, ia seguindo divertido as minhas indicações (um pouco mais aqui, um pouco mais desbastado aí,… agora a franja para aquele lado…). Pelo espelho à minha frente, constatei que a restante actividade do salão foi parando, as cadeiras viraram-se na minha direcção e nos rostos iam-se definindo sorrisos divertidos.
Quando me pareceu que o escortanhanço já permitia um arejamento satisfatório, pronunciei-me:
- Yah, está bom assim!
O rapaz simpático abriu um pouco mais os olhos fazendo subir as sobrancelhas e perguntou:
- Yah? Fica assim? Está pronto?
Soltou uma risada, rectificando logo de seguida para um ar entendido:
- Yah! Pois… Lá no Brasil gostam do cabelo assim!”
- [Yah, jóbem, acho que a tua gorjeta vai ser um par de cotonetes!]

(...)

Na segunda ida ao DEFA (Departamento de Estrangeiros e Fronteiras):
- Boa tarde… estivemos cá há umas semanas a dar conhecimento da nossa presença aqui, não sei se está recordado… Agora viemos para esclarecer uma questão que nos foi levantada relativamente aos nossos vistos de permanência…
Perante o ar de incompreensão, tiramos os passaportes e fez-se luz:
- Ah, sim… vocês são aqueles espanhóis que estão cá…
- [Yah! Por supuesto! o meu passaporte é espanhol e tudo! :p]

(...)

Estaciono o carro na avenida, salto para o chão, ponho o chapéu na cabeça porque o sol aqui quando nasce é para matar, ajeito os óculos escuros, coloco a bolsa à cintura e dirigo-me ao interior do mercado municipal. Os meus ouvidos captam qualquer coisa do género:
- You like timber (acho que se refere à minhas botas...)... yah... american!
[Bem... pelo menos aqui ia de boca fechada]

What Else?!

quarta-feira, 4 de março de 2009

A primeira amiga

No dia seguinte ao da minha chegada deram-me uma amiga. Para além de primeira amiga, a Fefa foi também o primeiro capítulo de um manual de sobrevivência, ainda em aprendizagem, agora já com a ajuda de outros amigos. Aqui as pequenas coisas do dia-a-dia não são fáceis para um europeu recém chegado. Há situações e circunstâncias com as quais não sabemos imediatamente como lidar, pequenos problemas cuja solução para nós não é óbvia, obstáculos cujo contorno é pouco claro e, embora as pessoas aqui sejam no geral educadas e amáveis, vêem-nos sempre como estranhos. O código social e cívico entre as pessoas de cá não é aplicável aos de fora. A companhia assídua da Fefa nas primeiras semanas possibilitou-me uma percepção mais rápida das nuances desse código e, simultaneamente, deu-me tempo para poder ser olhada como sendo um pouco mais daqui.

Com a minha nova amiga, fiz as primeiras incursões pelas lojas e mercados da cidade, aventurei-me por estradas secundárias e picadas no meio do capim para conhecer mais fim de mundo, adquiri conhecimentos e tive novas experiências gastronómicas, aprendi a mostrar-me confortável em situações desconfortáveis e também conheci pessoas, algumas das quais novos capítulos de um manual de sobrevivência mais alargado. Aqui, há fortes relações de interdependência e de influências, pelo que conhecer pessoas é fundamental para que a permanência decorra sem grandes sobressaltos. A Fefa não o diz, mas percebe-se que o sabe.

Dona Fefa é o que aqui se chama uma “mamã”, tratamento de respeito aplicado geralmente a mulheres mais velhas, mães de família. Na realidade, a minha amiga é até mais nova do que eu, mas as pessoas dirigem-se-lhe com um "Bom dia mãe!", “Passar bem, mãezinha!”, “São duzentos kwanzas, mamã…”. A mim costumam chamar-me de "irmã", até em situações menos comuns … “irmã, vais ter de levar multa…”, disse-me uma vez um polícia (depois, e após argumentação da “mamã”, acabou por reconhecer que não havia motivo para multa alguma). Os putos da rua chamam-me geralmente de “madrinha”… “madrinha, dá 10 pró pão!”, “madrinha, não queres lavar carro?”.

A Fefa, além de ser uma mulher muito inteligente, tem a sabedoria, o espírito prático e demais argumentos de quem soube sobreviver a tempos difíceis. Durante a guerra, o serviço a que pertencia deixou de funcionar e, como a maioria das pessoas, ficou sem emprego. Foi necessário garantir a sobrevivência e o sustento da família através de expedientes que muitas vezes representavam risco de vida. Arcou com esse risco nas muitas vezes que saiu da cidade cercada para adquirir, em locais por vezes distantes, bens de consumo que trazia para vender. Hoje, com uma vida estável, raramente fala do passado, é alegre e distribui generosidade. Continua a ser o suporte de uma numerosa família alargada e ainda arranja disponibilidade e amizade para dedicar a desconhecidos que acabam de lhe aterrar no colo vindos de outro continente.

terça-feira, 3 de março de 2009

Material escolar

De manhã, ao sair do ximbeco em direcção à cidade, cruzo-me com as crianças dos bairros periféricos que se dirigem para a escola primária, vestidos com as suas batas brancas, as mochilas às costas e, sobre a cabeça ou debaixo do braço... uma cadeirinha de plástico. Alguns não transportam cadeira. Alguns levam os cadernos na mão e protegem-nos da chuva sob as camisolas.

segunda-feira, 2 de março de 2009

O funcionário

No restaurante onde todos os dias vou jantar, trabalha (para além dos vários cozinheiros e empregados de mesa) um matulão de um metro e noventa e uns noventa quilos, com um ar entre o afável e o molengão, que fala muito baixinho, e cujo horário de trabalho é das sete da manhã até à meia-noite, de domingo a sábado. Desde que aqui cheguei ainda não o vi ter folga. Troca uma lâmpada quando é necessário, liga o gerador quando há corte de energia, sintoniza o televisor num qualquer canal desportivo ou noticioso, ocasionalmente tira um café para um dos colegas levar a uma mesa e esporadicamente vai à rua comprar qualquer produto em falta. Tarefas que ocupam uma parcela insignificante do que parece ser o seu horário de trabalho. O resto do tempo, passa-o na conversa com os colegas, com alguns clientes mais habitués ou simplesmente sentado numa das mesas a jogar no computador. Depois de me questionar sobre a utilidade de tal figura no estabelecimento, concluí que poderia tratar-se de um protegido adoptado pelos patrões, provavelmente um órfão filho de antigos empregados, situação comum por aqui. Nada! As reais atribuições do funcionário compreendi-as ontem à hora do jantar, quando um cliente, depois de efectuar uma despesa considerável, tentou sair de fininho sem pagar a conta. Os sons vindos da cozinha não deixavam margem para dúvida sobre o que estava a acontecer. Os clientes, esses após um breve virar de cabeça na direcção da cozinha e o esboçar de um sorriso entendido, voltaram a concentar-se no jogo de futebol da liga espanhola que passava na SportTV África. Parece que se tratou apenas de mais um episódio rotineiro, já que, em tais situações, "chamar a polícia só vai dar ainda mais despesa". O indesejável, entretanto despejado (não sei muito bem se inteiro ou aos pedacinhos) pela porta dos fundos, não voltará certamente a entrar no estabelecimento… garantiram... e eu acredito. As coisas aqui são mesmo assim, mas... porra, não consigo parar de pensar naquilo!