Poucos dias depois da chegada, a procura de um sítio onde pudesse tomar um bom café expresso levou-me ao restaurante do Sr. A., uma das figuras mais idiossincráticas que alguma vez conheci. Foi um caso de amor à primeira vista, mais exactamente à primeira conversa. Este português, nascido transmontano, está em Angola há mais de 50 anos e não quer nem ouvir falar de viver em Portugal, onde apenas vai de férias esporadicamente. Já teve todos os tipos de negócios, possíveis, imaginários e inimagináveis, ao longo da sua vida aqui. É uma personalidade surpreendente, um sobrevivente e um vencedor, para quem “águas passadas, moinhos não movem” (é assim que ele diz). Nunca vai pela cabeça dos outros e segue sempre o seu instinto. Para os negócios tem a ousadia, a sagacidade e a implacabilidade de um predador. Um pouco paradoxalmente, revela uma enorme dose de humanidade, compreensão e até generosidade, Norteando-se por uma ética de integridade pessoal e verticalidade, que lhe granjeou inúmeras e fiéis amizades, bem como o respeito e a admiração de praticamente todos os que o conhecem… que são muitos!... Aqui na região, pelo país fora e até fora de fronteiras. Quem o vê pela primeira vez, não tem o menor vislumbre da magnitude da sua individualidade e do seu ascendente. A sua baixa estatura, a atitude umas vezes alheada outras vezes aparentemente “à toa” sem saber para onde se virar, o andar desengonçado devido às placas de platina e parafusos que o sustentam, o ar frequentemente ofegante e encalorado, a expressão afectuosa de avozinho (adora crianças e as crianças adoram-no), a linguagem cheia de yahs, buééééés e outro calão que nos habituámos a tomar como juvenil, compõem uma figura algo naif, vulnerável até, que não poderia ser mais arredada da realidade.
O Sr. A. adora conversar e é extraordinariamente arguto na avaliação que faz das pessoas que vai conhecendo. Vá-se lá saber porquê, engraçou com o nosso grupo e nota-se que gosta genuinamente de nós. Todos os dias arranja um tempinho para se sentar na nossa mesa, contando histórias do seu passado e até algumas do seu futuro… sim porque aquilo que mete na cabeça haverá certamente de concretizar-se. Às vezes tenho a sensação de que já nos contou praticamente toda a sua vida (incluindo o que para muitos seriam episódios ou factos inconfessáveis…). Depois percebo que, afinal, muito longe disso!… porque a sua vida demoraria uma outra vida, inteirinha, para ser contada. É com um brilho nos olhos que fala dos seus tempos da camanga (acho que, de todas, a sua maior paixão), do chamamento do mato, do gosto pelas caçadas e do vício de ganhar dinheiro. Fala do tempo em que costumava jogar damas ou xadrez com o Mobutu (sim, “o” Mobutu!). Fala das balas que lhe roçaram o corpo e daquela que ainda tem na perna, fruto de um assalto que sofreu e em que achou por bem tentar contra-atacar os gatunos. Diz que nunca sentiu medo, porque sabe que o medo tolhe as pessoas e limita-lhes a sobrevivência. É um homem de muitos lemas e é com convicção que afirma que “à mão não me hão-de apanhar”, acrescentando em seguida que “morrer por morrer, matar até poder”. Confesso que, ultimamente, começo a ficar um pouco preocupada comigo mesma, porque ouço estas histórias e acho tudo a coisa mais normal e natural do mundo.
O nosso amigo tem alguns tiques engraçados e muito próprios. Gosta de bater com as notas na mesa, como um jogador de sueca faz com uma vaza proveitosa. Quando janta sozinho faz um brinde a si mesmo tocando na garrafa com o seu meio copo de vinho tinto. Até há alguns dias atrás, fazia à mão, e em poucos segundos, contas de centenas de dólares e depois tirava a prova dos nove… dava sempre certo. Não usava a calculadora porque, segundo dizia, demorava mais tempo. Agora adquiriu um sistema informatizado para processar os pedidos e tirar as contas. Diz que é um bom investimento, porque os empregados não tomavam nota de grande parte das coisas que os clientes consumiam, o que se traduzia num prejuízo considerável. De início ia mudando de empregados, mas desistiu porque percebeu que não valia a pena. Mantendo os mesmos aprende a conhecer-lhes as manhas e as fraquezas e torna-se mais fácil controlar as coisas. Também sabe que não vale a pena querer ensinar-lhes muitas coisas ao mesmo tempo, porque eles ficam baralhados e nervosos e depois então é que trocam tudo. O restaurante é caro e a maioria dos clientes que lá vão costumam ser exigentes (eu diria mesmo implicativos), reclamando de tudo e mais algumas botas, o que faz com que os empregados fiquem com medo de atender às mesas, começando a empurrar a tarefa de uns para outros. Então é que os clientes se passam mesmo, porque desesperam com a espera para serem atendidos. A seguir é o Sr. A.. que se passa com os empregados chamando-lhes coxos e aleijados e outros impropérios. Os reclamantes riem-se e lá se acalmam conformados pois, na realidade, não têm outro remédio. É um filme todas as noites. Na cozinha, onde trabalham quatro chefs e alguns ajudantes, quem tenta impor a ordem é a patroa, através de peculiares dinâmicas de grupo que lhe valeram o cognome de “A Faz Barulho”. Isso os empregados aprenderam depressa, pois há dias dizia um deles: “A Dona faz Barulho já voltou das compras em Luanda…”.
Como bom negociante, o Sr. A.. sabe que o bom negócio é aquele que é proveitoso para ambas as partes (N´Gola dixit). A troco de uma fidelização da nossa parte garante-nos preços mais acessíveis que nos permitem ir diariamente ao restaurante tomar o mata-bicho e o jantar. Quando é necessário também nos fornece as quantias necessárias para as restantes despesas. Tudo é pago ao mês por transferência entre balcões portugueses. Transferir regularmente dinheiro de Portugal para uma conta de cá é um processo complicado e caro, porque não é possível fazê-lo através da internet e os bancos envolvidos cobram taxas que são o abuso que todos conhecemos... já para não falar que, aqui, com a enormidade de vezes que o banco não funciona porque o sistema está em baixo, ter o dinheiro no banco ou não ter dinheiro vai dar no mesmo.
O Sr. A. parece conhecer a solução para todos os pequenos e grandes problemas do quotidiano e, até do tempo de que não dispõe, consegue sempre roubar um bocadinho para nos dar uma ajuda quando necessário. Também gosta de nos fazer ver a realidade assim como que através de um prisma invertido, com observações por vezes pouco ortodoxas e que vão muito além do que a nossa lógica imediata alcança. Dentre os seus (muitos) lemas de vida há um, muito curioso, que ele repete com frequência: “Quem trabalha muito fica sem tempo para poder ganhar dinheiro”. Tenho andado a pensar nisto e ainda não concluí se se trata de uma verdade universal, mas já percebi que aqui funciona assim (de onde se depreende que ainda não é desta que vou ficar rica!). Num país de oportunidades, estas escapam-se ou passam despercebidas aos que andam sempre muito ocupados. Por isso, o Sr. A. diz que está farto de estar preso no restaurante, que lhe exige mais de 16 horas de trabalho e atenção diários, não lhe deixando disponibilidade para mais nada… nem para pensar. O que gosta mesmo é de ir para o mato e ficar por lá semanas. Aí tem tempo e paz de espírito para planear os negócios. Tem saudades dos diamantes, da casa no Cafunfo e das caçadas nocturnas com os compinchas. Já foi atacado e ferido por uma onça e fala de cobras surucucu e de jacarés, como quem fala de moscas e de melgas. Frequentemente o olhar fixa-se em sítio nenhum e esboça um sorriso simultaneamente nostálgico e prazeiroso. Por momentos, parece ter-se transportado para os locais que, entusiasmado, propõe levar-nos a conhecer. Ou para o passado relativamente recente em que (contado por terceiros e confirmado pelo próprio) usava o cabelo comprido amarrado num puxo e, no tornozelo, uma pulseira de ouro com diamantes... e tinha um macaco chamado caga-à-toa, que gostava de lhe roubar os diamantes e escondê-los nas bochechas. São breves momentos de fuga para, de seguida, com uma palmada na mesa, voltar à realidade das suas 16 horas a controlar mesas e empregados. Levanta-se e vai ao que tem de ser… por agora.
O Sr. A. adora conversar e é extraordinariamente arguto na avaliação que faz das pessoas que vai conhecendo. Vá-se lá saber porquê, engraçou com o nosso grupo e nota-se que gosta genuinamente de nós. Todos os dias arranja um tempinho para se sentar na nossa mesa, contando histórias do seu passado e até algumas do seu futuro… sim porque aquilo que mete na cabeça haverá certamente de concretizar-se. Às vezes tenho a sensação de que já nos contou praticamente toda a sua vida (incluindo o que para muitos seriam episódios ou factos inconfessáveis…). Depois percebo que, afinal, muito longe disso!… porque a sua vida demoraria uma outra vida, inteirinha, para ser contada. É com um brilho nos olhos que fala dos seus tempos da camanga (acho que, de todas, a sua maior paixão), do chamamento do mato, do gosto pelas caçadas e do vício de ganhar dinheiro. Fala do tempo em que costumava jogar damas ou xadrez com o Mobutu (sim, “o” Mobutu!). Fala das balas que lhe roçaram o corpo e daquela que ainda tem na perna, fruto de um assalto que sofreu e em que achou por bem tentar contra-atacar os gatunos. Diz que nunca sentiu medo, porque sabe que o medo tolhe as pessoas e limita-lhes a sobrevivência. É um homem de muitos lemas e é com convicção que afirma que “à mão não me hão-de apanhar”, acrescentando em seguida que “morrer por morrer, matar até poder”. Confesso que, ultimamente, começo a ficar um pouco preocupada comigo mesma, porque ouço estas histórias e acho tudo a coisa mais normal e natural do mundo.
O nosso amigo tem alguns tiques engraçados e muito próprios. Gosta de bater com as notas na mesa, como um jogador de sueca faz com uma vaza proveitosa. Quando janta sozinho faz um brinde a si mesmo tocando na garrafa com o seu meio copo de vinho tinto. Até há alguns dias atrás, fazia à mão, e em poucos segundos, contas de centenas de dólares e depois tirava a prova dos nove… dava sempre certo. Não usava a calculadora porque, segundo dizia, demorava mais tempo. Agora adquiriu um sistema informatizado para processar os pedidos e tirar as contas. Diz que é um bom investimento, porque os empregados não tomavam nota de grande parte das coisas que os clientes consumiam, o que se traduzia num prejuízo considerável. De início ia mudando de empregados, mas desistiu porque percebeu que não valia a pena. Mantendo os mesmos aprende a conhecer-lhes as manhas e as fraquezas e torna-se mais fácil controlar as coisas. Também sabe que não vale a pena querer ensinar-lhes muitas coisas ao mesmo tempo, porque eles ficam baralhados e nervosos e depois então é que trocam tudo. O restaurante é caro e a maioria dos clientes que lá vão costumam ser exigentes (eu diria mesmo implicativos), reclamando de tudo e mais algumas botas, o que faz com que os empregados fiquem com medo de atender às mesas, começando a empurrar a tarefa de uns para outros. Então é que os clientes se passam mesmo, porque desesperam com a espera para serem atendidos. A seguir é o Sr. A.. que se passa com os empregados chamando-lhes coxos e aleijados e outros impropérios. Os reclamantes riem-se e lá se acalmam conformados pois, na realidade, não têm outro remédio. É um filme todas as noites. Na cozinha, onde trabalham quatro chefs e alguns ajudantes, quem tenta impor a ordem é a patroa, através de peculiares dinâmicas de grupo que lhe valeram o cognome de “A Faz Barulho”. Isso os empregados aprenderam depressa, pois há dias dizia um deles: “A Dona faz Barulho já voltou das compras em Luanda…”.
Como bom negociante, o Sr. A.. sabe que o bom negócio é aquele que é proveitoso para ambas as partes (N´Gola dixit). A troco de uma fidelização da nossa parte garante-nos preços mais acessíveis que nos permitem ir diariamente ao restaurante tomar o mata-bicho e o jantar. Quando é necessário também nos fornece as quantias necessárias para as restantes despesas. Tudo é pago ao mês por transferência entre balcões portugueses. Transferir regularmente dinheiro de Portugal para uma conta de cá é um processo complicado e caro, porque não é possível fazê-lo através da internet e os bancos envolvidos cobram taxas que são o abuso que todos conhecemos... já para não falar que, aqui, com a enormidade de vezes que o banco não funciona porque o sistema está em baixo, ter o dinheiro no banco ou não ter dinheiro vai dar no mesmo.
O Sr. A. parece conhecer a solução para todos os pequenos e grandes problemas do quotidiano e, até do tempo de que não dispõe, consegue sempre roubar um bocadinho para nos dar uma ajuda quando necessário. Também gosta de nos fazer ver a realidade assim como que através de um prisma invertido, com observações por vezes pouco ortodoxas e que vão muito além do que a nossa lógica imediata alcança. Dentre os seus (muitos) lemas de vida há um, muito curioso, que ele repete com frequência: “Quem trabalha muito fica sem tempo para poder ganhar dinheiro”. Tenho andado a pensar nisto e ainda não concluí se se trata de uma verdade universal, mas já percebi que aqui funciona assim (de onde se depreende que ainda não é desta que vou ficar rica!). Num país de oportunidades, estas escapam-se ou passam despercebidas aos que andam sempre muito ocupados. Por isso, o Sr. A. diz que está farto de estar preso no restaurante, que lhe exige mais de 16 horas de trabalho e atenção diários, não lhe deixando disponibilidade para mais nada… nem para pensar. O que gosta mesmo é de ir para o mato e ficar por lá semanas. Aí tem tempo e paz de espírito para planear os negócios. Tem saudades dos diamantes, da casa no Cafunfo e das caçadas nocturnas com os compinchas. Já foi atacado e ferido por uma onça e fala de cobras surucucu e de jacarés, como quem fala de moscas e de melgas. Frequentemente o olhar fixa-se em sítio nenhum e esboça um sorriso simultaneamente nostálgico e prazeiroso. Por momentos, parece ter-se transportado para os locais que, entusiasmado, propõe levar-nos a conhecer. Ou para o passado relativamente recente em que (contado por terceiros e confirmado pelo próprio) usava o cabelo comprido amarrado num puxo e, no tornozelo, uma pulseira de ouro com diamantes... e tinha um macaco chamado caga-à-toa, que gostava de lhe roubar os diamantes e escondê-los nas bochechas. São breves momentos de fuga para, de seguida, com uma palmada na mesa, voltar à realidade das suas 16 horas a controlar mesas e empregados. Levanta-se e vai ao que tem de ser… por agora.
3 comentários:
É sempre interessante conhecer pessoas diferentes, que fogem aos padrões daquelas com quem nos habituámos a conviver ao longo de toda a nossa vidinha. É engraçado ver a facilidade com que aí parecem desenvolver-se as relações. Vive a tua aventura e aproveita. Nem todos têm essa oportunidade e menos ainda devem ter a capacidade de a querer viver.
Às vezes tenho alguma inveja (da boa ;D) de não poder experimentar uma coisa dessas também.
Um beijo grande com muitas saudades.
(então e agora que parece já teres fotos... mais algumas para a malta ver, hein?)
Bjs
Cris.
Que belo relato. Já me tinhas contado alguma coisa sobre o senhor mas assim é outra espiga. Isto de não teres internet dá-te tempo para escreveres estes textos mais compreensivos e muito entusiasmantes de ler. Que a internet volte mas que isto se mantenha hehe.
Outra espiga é mesmo ao vivo e a cores porque há coisas que não se devem pôr na sopinha de letras que é servida em público.
E obrigada pelo incentivo, sempre achei que ninguém teria sequer coragem de começar a ler um post deste tamanho, e muito menos paciência para o terminar :p
Cris,
tenho fotos sim, mas a internet aqui é tão rápida que quando faço o upload elas atravessam rapidamente a blogosfera e dissipam-se na ionosfera. Vou colocando à medida que a disponibilidade de tempo mo permitir.
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