sábado, 28 de fevereiro de 2009

A cidade

Embora capital de Província, a cidade é pequena e quase pacata. Não fosse o caos que é a circulação na estrada e nas ruas, e seria mesmo uma cidade pacata. A chegada aos limites da cidade (para quem vem da direcção de Luanda), além de anunciada pelo enorme cartaz de boas-vindas, adivinha-se pela súbita entropia, que cresce ao longo de cerca de 5 km de sanzalas periféricas e atinge o auge à entrada da zona urbana propriamente dita. Aí aglomeram-se modernos postos de abastecimento de combustível abertos recentemente, armazéns de venda a grosso onde se apinham quitandeiras e zungueiras com os alguidares à cabeça e as crianças às costas, dezenas de homens e rapazes com carros de mão ou bicicletas que transportam cargas de todas as naturezas, dimensões e feitios, peões que atravessam a estrada carregando na cabeça pilhas de colchões para vender no Xauande.

O mercado do Xauande, que se estende do lado esquerdo da estrada, é uma versão local da feira do Relógio. É um típico mercado africano a céu aberto onde, lado a lado, se vendem móveis e vegetais frescos, telemóveis e peixe seco, roupas, mercearia, plásticos, fuba de mandioca, pneus, pão, alimentos estranhos como lagartas secas… ou, como resumem as pessoas de cá, “no Xauande vende-se de tudo, menos pessoas”. Os artigos encontram-se expostos no chão, em alguidares ou em bancas improvisadas. As condições são precárias tanto para quem vende como para quem compra e as condições de higiene… é melhor não pensar nisso! Nesta altura do ano, a visita ao Xauande aconselharia o uso de galochas e, nos dias piores, talvez um veículo anfíbio… diria eu, até ver a maioria das pessoas de havaianas e outras mesmo descalças. Para felicidade de toda a gente está a iniciar-se a construção de um novo grande mercado mais funcional e higiénico.

À frente começa a avenida principal, ladeada por pequenas lojas chamadas de “comércio geral” (quer isto dizer que vendem tudo e mais alguma coisa, embora, com frequência, não tenham aquilo que no momento queremos encontrar), algumas farmácias onde, entre outras coisas, se podem adquirir os cartões para recarga de telemóveis, o mercado municipal onde, para além das expectáveis frutas e hortaliças, se podem também comprar mercearias produtos de drogaria, artigos eléctricos, acessórios informáticos, etc.

Os grandes armazéns e lojas de comércio geral são, quase invariavelmente, propriedade de indianos ou libaneses, que vendem produtos alimentares de origem portuguesa, brasileira ou libanesa e quinquilharias diversas de fabrico chinês. Alguns armazéns vendem também motorizadas, motas e geradores.

Avançando um pouco mais pela avenida principal, chegamos à zona onde se localizam agências bancárias, operadoras de telecomunicações e outras empresas fornecedoras de serviços. Aqui há sempre uma grande concentração de polícias e seguranças não militarizados. As agências bancárias funcionam "quando há sistema”, isto é, de vez quando. Depois de aqui ter chegado, o banco do qual me fiz cliente esteve uma semana inteira com o sistema em baixo. Agora está outra vez sem sistema. Quando não há sistema, o banco não abre ao público e os funcionários ficam de folga e passam o dia no café ou a passear. Daqui se conclui que, aqui, ser empregado bancário é um excelente emprego e, no nosso caso, ter sempre uma reserva de kumbú no bolso é uma prática recomendável.

Nesta zona da avenida há também prédios de habitação, na sua grande maioria degradados ou semi-destruídos (alguns foram-no ainda antes de se encontrarem concluídos). Estas testemunhas de guerras anteriores dão uma nota de desolação ao bulício da hora de ponta que, aqui, é mais ou menos por volta das três da tarde. Nas ruas secundárias, povoadas de habitações mais pobres e lojas de pequeno comércio, é difícil circular. Ou são autênticas picadas com buracos, pó, lama e muitos saltos e saltinhos, ou então as obras de reconstrução (empreitadas chinesas e brasileiras) obrigam-nos a desvios e percursos imprevistos.

Ao longo da avenida existem polícias sinaleiros em cima de pequenos palanques pintados de branco e vermelho, cujo movimento das mãos, enluvadas de branco, faz lembrar o de uma dançarina oriental e que fazem acompanhar a sua sinalética de um frenesim de apito que nos deixa imediatamente stressados, com receio de ter infringido alguma regra do código local.

A avenida termina no simpático Largo 4 de Fevereiro, hoje quase totalmente recuperado, com bonitos edifícios ocupados por serviços oficiais e um agradável jardim com palmeiras e espaços de descanso e lazer na sombra de caramanchões de buganvílias. Aqui, já ficou para trás a agitação das zonas comerciais e respira-se uma tranquilidade amena.

Logo a seguir encontra-se, de um lado, a “catedral”, uma igreja de tipo colonial também restaurada e, do outro lado, uma zona residencial constituída por moradias com bonito traço, muitas degradadas ou destruídas, outras recuperadas e com aspecto muito simpático. Numa zona um pouco mais afastada da avenida, há um supermercado moderno pertencente à principal cadeia de supermercados do país.

Finalmente, já na estrada de saída da cidade, encontra-se o Hospital Regional, recentemente reconstruído. Nos jardins do hospital há sempre uma multidão de pessoas. Doentes, familiares e acompanhantes sentam-se nos muretes dos canteiros juntamente com zungueiras que vendem bananas, abacaxis, sabonetes, champôs, pastas dentífricas, e tudo o mais que se possa transportar num alguidar à cabeça. Também se vêem alguns cães que correm e saltam entre os canteiros. Para além deste Hospital Regional existe, no Bairro da Carreira que fica para lá do Xauande, na outra ponta da cidade, um Hospital Municipal novinho em folha que, à semelhança do Hospital Regional, está cheio de caracteres chineses por tudo o que é sítio.

Depois da saída da cidade, em direcção a zonas mais interiores do país, permanece um desconhecido por explorar a que nos referimos como “lá para os lados das Lundas"... irei lá num futuro próximo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Diz que é uma espécie de introdução...

Do meu ximbeco avista-se o fim do mundo. É uma das coisas que esta terra nos permite: olhar longe, muito longe, sem que nada nos corte a profundidade. Ter à frente uma paisagem que se estende até à linha do horizonte, lá no fim do mundo. Em Portugal só consigo ter esta sensação quando me encontro à beira-mar, mas aqui basta sair da cidade para ter o infinito ao alcance de um olhar.

E apesar de todas as recomendações, arrisco ignorar uma das medidas básicas de prevenção do paludismo (evitar a hora do pôr-do-sol) e gosto de me sentar no degrau do alpendre a ver a luz do dia esbater-se, até ser engolida lá para os lados do fim do mundo. Agora, em plena época das chuvas, as nuvens geralmente dominam o horizonte e o entardecer faz-se em estranhos tons de madrepérola. Mas também há aqueles dias que entardecem claros e então a luz afoga-se num mar de vermelho intenso.

Aqui, apesar de estarmos no verão (a estação dos dias mais longos), a noite chega bastante cedo e instala-se rapidamente. O crepúsculo é muito curto e, em pouco tempo, as cores que dominam o dia (o verde da paisagem, misturado com o vermelho da terra, encimados por um céu ora azul ora cinzento) dão lugar a um negro que seria absoluto, não fosse o invulgar número e brilho das estrelas que povoam este céu. Nas noites de lua cheia há uma luz prateada, intensa, que desobriga do uso da lanterna e permite adivinhar cada árvore e cada arbusto que se erguem sobre o capim na vastidão que rodeia aqui o ximbeco.

Mas se esta imensurabilidade me transmite uma enorme paz e me preenche de uma forma que é difícil descrever e explicar, também me faz sentir a distância física que me separa das pessoas queridas que ficaram para lá da linha do horizonte e com as quais me habituei a partilhar sentimentos e vivências. A vontade de continuar a partilhar as experiências do dia-a-dia, e tudo o mais que me der na telha, levou-me a criar este ximbeco virtual. Tanto quanto as contingências da navegação cibernáutica (que aqui são imensas e limitantes) me permitirem, aqui tentarei deixar, entre outros pensamentos e desabafos, alguns apontamentos e sentimentos sobre esta aventura de viver e trabalhar numa África mais ou menos profunda, num país ainda lacerado pela guerra, mas que, à sua maneira algo tortuosa e aos poucos, parece querer reerguer-se.