sexta-feira, 24 de abril de 2009

Papeando

- Oi camba, lá tem maca?
- Yah!... diz que engomaram um muadié...

? :s ?

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Sim... aqui também se trabalha

A última semana foi passada no campo do nascer ao pôr-do-sol. Levantar de madrugada, passar o dia na aldeia, regressar com o pôr-do-sol e, no total, pelo menos três horas de “estrada”.

Os técnicos que trabalham comigo não almoçam, pelo que eu também não o devo fazer. Além disso também não posso comer na presença dos camponeses. Seria falta de respeito, uma vez que estes também não almoçam. Significa isto que durante quatro dias consecutivos não almocei. Depois de um pequeno-almoço madrugador, a refeição seguinte (geralmente uma sandocha de queijo e um sumo) só vem depois das 17 ou 18 horas, já no carro, na viagem de regresso a casa. Mas sim… sobrevivi a esta espécie de Ramadão.

Apesar do calor também não convinha beber água (sim, exactamente, por causa disso mesmo… ingerir implica ter de a verter algum tempo depois, sendo que eu não saberia minimamente onde o fazer). Por isso, no final do dia, entre o regresso e a hora do jantar há que dar cumprimento à DDR do precioso líquido (a garrafinha de 1,5 litros).

Quinta feira à noite foi o alívio do dever cumprido.

no regresso... east, west, home's best...

Esta semana está a ser mais tediosa: pôr toda a informação na base de dados. Já estou enjoada de olhar para folhas de excel cheias de quadradinhos e números. Por estes dias, aqui no ximbeco não reina a paz do costume. Andam a fazer obras e a barulheira lá fora não ajuda à concentração. Sinto vontade de dar uma volta para desentorpecer as pernas e o cérebro. Ainda me aventurei até ao portão mas o sol tórrido fez-me desistir. Respirei fundo, enchi os olhos com as cores da paisagem e voltei para a monotonia das paredes brancas e das células do excel.

Aqui é sempre difícil arriscar um passeio pedestre um pouco mais longínquo, porque corre-se o risco de ficar esturricado com o sol, ensopado até aos ossos pela chuva ou mesmo carbonizado por um raio. Por isso o impermeável, o guarda-chuva, o chapéu para o sol, os óculos escuros e o protector solar são amigos inseparáveis. E uma mochila de tamanho suficiente para levar tudo isso e mais a garrafa de água. Acho que hoje vamos ter um mix… já conheço aquelas nuvens de desenvolvimento vertical que se avistam no horizonte e a quantidade de água e de electricidade que carregam.

Bem, pelo menos hoje tenho direito a almoço. Depois volto para o computador. Para a semana volto à aldeia… e ao jejum diurno. Entretanto ainda não decidi qual o sacrifício maior: se o "ramadão" ou se o excel. Valem as contrapartidas: o que a "minha aldeia" me ensina e o aconchego do meu ximbeco.

domingo, 12 de abril de 2009

A primeira visita

Há pouco, o ex-boss e grande amigo C. telefonou a anunciar que, no próximo fim-de-semana, chega a Angola em missão de serviço, e que no domingo fará os 450 km que separam Luanda de Malange para vir almoçar comigo. Fiquei feliz, vai ser bom poder desabafar com alguém. Falar das venturas e das aventuras, ter um ombro onde depositar as desventuras. A seguir vieram as lágrimas do costume. É quando sentimos a proximidade das pessoas queridas que mais nos apercebemos de como nos fazem falta quando estão longe ou ausentes.
Estou feliz aqui, mas faltam-me tantos bocadinhos de mim…

Páscoa

Não fossem as imensas aglomerações às portas das Igrejas, literalmente a abarrotar para a missa das 10h (que aqui começa rigorosa e invariavelmente às 10h45), e as pessoas que circulam pela avenida com os seus melhores trajes (os homens de camisa, calça social e sapato fechado, as “mamãs com os seus trajes garridos, as jovens mais tapadas do que o habitual) e não me lembraria que hoje é Páscoa. Como eu nem gosto de amêndoas e já me desabituei dos chocolates (aqui ainda não chegou a influência suíça ou belga e chocolates só brasileiros… blhec!), também não lhes dou pela falta. Não se oferecem presentes, não há centros comerciais para visitar, nem montras para ver, nem colecções para a nova estação (aqui vai entrar o Outono, mas acho que as colecções são as mesmas ao longo do ano e ao longo dos anos). Por isso, o dia ensolarado convida a desfrutar das maravilhas da mãe natureza. Talvez procurar um pouco de frescura junto às quedas de Kalandula ou nos rápidos do Kwanza. No meu caso com a toilette do costume: jeans, camisa, botas, chapéu, óculos de sol, protector solar 50+ e repelente de mosquitos. E claro a máquina fotográfica. Um domingo igual a tantos outros.
Saudades sim, da família e dos amigos. Pronto, confesso, também algumas saudades de ter uma net que funcione o suficiente para eu me poder comunicar com o mundo.
Para todos uma boa Páscoa, isto é aproveitem o dia o melhor que puderem.

sábado, 4 de abril de 2009

O amigo português

Poucos dias depois da chegada, a procura de um sítio onde pudesse tomar um bom café expresso levou-me ao restaurante do Sr. A., uma das figuras mais idiossincráticas que alguma vez conheci. Foi um caso de amor à primeira vista, mais exactamente à primeira conversa. Este português, nascido transmontano, está em Angola há mais de 50 anos e não quer nem ouvir falar de viver em Portugal, onde apenas vai de férias esporadicamente. Já teve todos os tipos de negócios, possíveis, imaginários e inimagináveis, ao longo da sua vida aqui. É uma personalidade surpreendente, um sobrevivente e um vencedor, para quem “águas passadas, moinhos não movem” (é assim que ele diz). Nunca vai pela cabeça dos outros e segue sempre o seu instinto. Para os negócios tem a ousadia, a sagacidade e a implacabilidade de um predador. Um pouco paradoxalmente, revela uma enorme dose de humanidade, compreensão e até generosidade, Norteando-se por uma ética de integridade pessoal e verticalidade, que lhe granjeou inúmeras e fiéis amizades, bem como o respeito e a admiração de praticamente todos os que o conhecem… que são muitos!... Aqui na região, pelo país fora e até fora de fronteiras. Quem o vê pela primeira vez, não tem o menor vislumbre da magnitude da sua individualidade e do seu ascendente. A sua baixa estatura, a atitude umas vezes alheada outras vezes aparentemente “à toa” sem saber para onde se virar, o andar desengonçado devido às placas de platina e parafusos que o sustentam, o ar frequentemente ofegante e encalorado, a expressão afectuosa de avozinho (adora crianças e as crianças adoram-no), a linguagem cheia de yahs, buééééés e outro calão que nos habituámos a tomar como juvenil, compõem uma figura algo naif, vulnerável até, que não poderia ser mais arredada da realidade.

O Sr. A. adora conversar e é extraordinariamente arguto na avaliação que faz das pessoas que vai conhecendo. Vá-se lá saber porquê, engraçou com o nosso grupo e nota-se que gosta genuinamente de nós. Todos os dias arranja um tempinho para se sentar na nossa mesa, contando histórias do seu passado e até algumas do seu futuro… sim porque aquilo que mete na cabeça haverá certamente de concretizar-se. Às vezes tenho a sensação de que já nos contou praticamente toda a sua vida (incluindo o que para muitos seriam episódios ou factos inconfessáveis…). Depois percebo que, afinal, muito longe disso!… porque a sua vida demoraria uma outra vida, inteirinha, para ser contada. É com um brilho nos olhos que fala dos seus tempos da camanga (acho que, de todas, a sua maior paixão), do chamamento do mato, do gosto pelas caçadas e do vício de ganhar dinheiro. Fala do tempo em que costumava jogar damas ou xadrez com o Mobutu (sim, “o” Mobutu!). Fala das balas que lhe roçaram o corpo e daquela que ainda tem na perna, fruto de um assalto que sofreu e em que achou por bem tentar contra-atacar os gatunos. Diz que nunca sentiu medo, porque sabe que o medo tolhe as pessoas e limita-lhes a sobrevivência. É um homem de muitos lemas e é com convicção que afirma que “à mão não me hão-de apanhar”, acrescentando em seguida que “morrer por morrer, matar até poder”. Confesso que, ultimamente, começo a ficar um pouco preocupada comigo mesma, porque ouço estas histórias e acho tudo a coisa mais normal e natural do mundo.

O nosso amigo tem alguns tiques engraçados e muito próprios. Gosta de bater com as notas na mesa, como um jogador de sueca faz com uma vaza proveitosa. Quando janta sozinho faz um brinde a si mesmo tocando na garrafa com o seu meio copo de vinho tinto. Até há alguns dias atrás, fazia à mão, e em poucos segundos, contas de centenas de dólares e depois tirava a prova dos nove… dava sempre certo. Não usava a calculadora porque, segundo dizia, demorava mais tempo. Agora adquiriu um sistema informatizado para processar os pedidos e tirar as contas. Diz que é um bom investimento, porque os empregados não tomavam nota de grande parte das coisas que os clientes consumiam, o que se traduzia num prejuízo considerável. De início ia mudando de empregados, mas desistiu porque percebeu que não valia a pena. Mantendo os mesmos aprende a conhecer-lhes as manhas e as fraquezas e torna-se mais fácil controlar as coisas. Também sabe que não vale a pena querer ensinar-lhes muitas coisas ao mesmo tempo, porque eles ficam baralhados e nervosos e depois então é que trocam tudo. O restaurante é caro e a maioria dos clientes que lá vão costumam ser exigentes (eu diria mesmo implicativos), reclamando de tudo e mais algumas botas, o que faz com que os empregados fiquem com medo de atender às mesas, começando a empurrar a tarefa de uns para outros. Então é que os clientes se passam mesmo, porque desesperam com a espera para serem atendidos. A seguir é o Sr. A.. que se passa com os empregados chamando-lhes coxos e aleijados e outros impropérios. Os reclamantes riem-se e lá se acalmam conformados pois, na realidade, não têm outro remédio. É um filme todas as noites. Na cozinha, onde trabalham quatro chefs e alguns ajudantes, quem tenta impor a ordem é a patroa, através de peculiares dinâmicas de grupo que lhe valeram o cognome de “A Faz Barulho”. Isso os empregados aprenderam depressa, pois há dias dizia um deles: “A Dona faz Barulho já voltou das compras em Luanda…”.

Como bom negociante, o Sr. A.. sabe que o bom negócio é aquele que é proveitoso para ambas as partes (N´Gola dixit). A troco de uma fidelização da nossa parte garante-nos preços mais acessíveis que nos permitem ir diariamente ao restaurante tomar o mata-bicho e o jantar. Quando é necessário também nos fornece as quantias necessárias para as restantes despesas. Tudo é pago ao mês por transferência entre balcões portugueses. Transferir regularmente dinheiro de Portugal para uma conta de cá é um processo complicado e caro, porque não é possível fazê-lo através da internet e os bancos envolvidos cobram taxas que são o abuso que todos conhecemos... já para não falar que, aqui, com a enormidade de vezes que o banco não funciona porque o sistema está em baixo, ter o dinheiro no banco ou não ter dinheiro vai dar no mesmo.

O Sr. A. parece conhecer a solução para todos os pequenos e grandes problemas do quotidiano e, até do tempo de que não dispõe, consegue sempre roubar um bocadinho para nos dar uma ajuda quando necessário. Também gosta de nos fazer ver a realidade assim como que através de um prisma invertido, com observações por vezes pouco ortodoxas e que vão muito além do que a nossa lógica imediata alcança. Dentre os seus (muitos) lemas de vida há um, muito curioso, que ele repete com frequência: “Quem trabalha muito fica sem tempo para poder ganhar dinheiro”. Tenho andado a pensar nisto e ainda não concluí se se trata de uma verdade universal, mas já percebi que aqui funciona assim (de onde se depreende que ainda não é desta que vou ficar rica!). Num país de oportunidades, estas escapam-se ou passam despercebidas aos que andam sempre muito ocupados. Por isso, o Sr. A. diz que está farto de estar preso no restaurante, que lhe exige mais de 16 horas de trabalho e atenção diários, não lhe deixando disponibilidade para mais nada… nem para pensar. O que gosta mesmo é de ir para o mato e ficar por lá semanas. Aí tem tempo e paz de espírito para planear os negócios. Tem saudades dos diamantes, da casa no Cafunfo e das caçadas nocturnas com os compinchas. Já foi atacado e ferido por uma onça e fala de cobras surucucu e de jacarés, como quem fala de moscas e de melgas. Frequentemente o olhar fixa-se em sítio nenhum e esboça um sorriso simultaneamente nostálgico e prazeiroso. Por momentos, parece ter-se transportado para os locais que, entusiasmado, propõe levar-nos a conhecer. Ou para o passado relativamente recente em que (contado por terceiros e confirmado pelo próprio) usava o cabelo comprido amarrado num puxo e, no tornozelo, uma pulseira de ouro com diamantes... e tinha um macaco chamado caga-à-toa, que gostava de lhe roubar os diamantes e escondê-los nas bochechas. São breves momentos de fuga para, de seguida, com uma palmada na mesa, voltar à realidade das suas 16 horas a controlar mesas e empregados. Levanta-se e vai ao que tem de ser… por agora.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O intruso nocturno

Já passava das 23 horas, estava eu em vale de lençóis, os grilos grilavam como habitualmente, e eu pronta para viajar para o país dos sonhos. Subitamente um grande alarido lá fora...
- Mata, mata!... Está a fugir para ali!... Atira!...
Pelo meio sons de qualquer coisa a bater...
Sentei-me na cama a tentar perceber o que se passava, o coração a bater forte. Aconselharia a prudência a que eu me mantivesse às escuras e me barricasse na casa de banho. Mas já dizia o outro que a curiosidade matou o gato e lá agarrei na lanterna que dorme na minha cabeceira e, à falta de um colete à prova de bala, saí para o quintal mesmo de pijama e chinelos. Na esquina do bloco de quartos, vejo os guardas dessa noite, o Filipe que batia furiosamente com um pau no chão vociferando algo que entretanto eu já nem percebia e o Cardoso virado para ele apontando a kalash. Recolhi-me novamente, respirei fundo três vezes e voltei a abrir a porta. Lá me saiu a pergunta retórica:
- Tudo bem por aí?...
(retórica e ridícula, direi eu…).
- Matámos dôtora, matámos!
- Mataram??!!!??
- Sim, matámos a cobra!

Ah!... respirei novamente, acho que de alívio, não sei bem. Lá me aproximei o mais que consegui, pois com a escuridão o melhor era jogar pelo seguro. Apontei a lanterna, o bicho já ensanguentado e meio estripado ainda se mexia.
- Cobra, aqui? E mataram mesmo? Está mesmo morta?
- Sim, sim. Eu mesmo matei… com o pau. O Cardoso queria atirar nela mas estava muito escuro e não dava…

Foi a primeira vez que ouvi falar em matar cobras com rajada de metralhadora, mas pronto, se calhar também dá.
Depois de mais dois dedos de conversa (sobre cobras e outras feras) lá voltei para a camita, não sem antes vedar a fresta por baixo da porta e entalar o melhor que pude a rede mosquiteira por baixo do colchão. O cansaço acabou por se sobrepor a qualquer receio e em poucos segundos "apaguei".

Aqui fica a foto do bicho tirada na manhã seguinte. Disseram-me que era uma cuspideira, mas como destes bichos a única coisa que sei é que tenho medo deles, por mim pode ser qualquer coisa. Talvez o senhor biólogo me possa dar uma pista...

Eclipse

Eclipse total da internet observado na região do ximbeco, desde há algumas semanas.
Hoje parece que houve uma trégua.
Vamos ver por quanto tempo :P