sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A minha aldeia (3)

Enquanto não não há tempo para escrever sobre novas experiências, novos sítios, novas pessoas, aqui fica mais um pouco de reportagem sobre a "minha" aldeia. Dela tenho andado agora mais arredada, o trabalho levou-me até outros locais e outras gentes, que também ocuparam outros espaços no meu coração. Mas estas gentes, esta "avenida pombalina" e estes meninos terão sempre o seu cantinho.

(já dizia Gabriel Garcia Marquez, que "o coração tem mais quartos do que uma casa de putas"... parece que sim...)















segunda-feira, 13 de julho de 2009

Paths to Survival

The Path of Patience

There are paths behind me, now a path before me, the path of patience.
I have been running; my adrenaline is high.
There is no time to slow down;
I am full of energy and excitement, full of dreams and goals.
Yet the path before me sits nestled in a valley’s narrow stream.
It squeezes and presses my body on both sides, forcing me to take only short aggravating meticulous steps.
This, the path of patience, slows down my quick courageous pace.
I am able to conquer, to take hold of mountains in one hand whilst carrying a fortress on my shoulder;
yet, this path seems too hard for me to bear, too slow for me to master.
But let patience have its perfect work, that I may be refined and complete, lacking nothing.

Oh strong and courageous conqueror; give me your skills and boldness!
My path of patience is an overpowering mountain.
I once sat content with my surroundings, with all my variables coloured and placed in line.
I sat to listen to the melodies of each day, the sweet sounds of the heavens, where boredom, who is often so misunderstood, became my dear companion.
But this mountain, this my path to patience, takes me far beyond what my mind wants to know or experience, to birth me outside my comfort zone.
It offers unknown safety, height, developments far beyond my dreams.
This, the path of patience, will test all the fears within me.
Should I then request only meticulous steps to be taken?
Should I request the known and simple way?
But let patience have its perfect work, that I may be flawless and complete, lacking nothing.

You my enemy who tears my soul;
You my enemy who sits and laughs at all my afflictions, setting a snare to entrap me;
You who steals the bread from my table.
There is a path before me, the path of patience.
A path allowing you in, taking the weight off your feet, permitting you to dine before my table.
I know your ways;
you have tormented me for days, yet I must not repay you evil.
I must warm your bed, and set your linen.
Love my enemy?
My heart is full of pain, anger, resting only at the edge of bitterness.
I cannot see beyond you my enemy, I can only see the past behind me, the past blemished and discoloured by your name.
What you have stolen from me, I must now replace with love and in forgiveness fill your grail.
But let patience have its perfect work, that I may be whole and complete, lacking nothing.

Patience, what a wonderful character you can create within me.
Yet you, Patience, are so easily defeated.
Your path comes in many forms, many faces, many trials.
Sometimes shoes placed upon my feet for a long journey.
Shoes so tight and tattered long before your path ’s complete;
or rain pouring down upon my weary head, washing away my blessed tears of innocence;
A page, a chapter of my life…
But to you, O Patience, I will journey, for you carry such a desirable part of the human being.
Though you may cause my body to be weathered and aged, what beauty you are to behold within my person.
In apathy will I then seek other paths, or let you have your perfect work in me, that I may be refined, flawless, whole, and complete, lacking nothing?

(Mary Grey-Pfeiffer, in: Passages of Life, 2007)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A minha aldeia (2)

A caminho...







e já estamos quase lá.

Long time, no write


Pois é people... quando eu digo que estou no fim do mundo, i really mean it! Aliás chego a ter a sensação de que ultimamente tenho estado mesmo fora do mundo. Lembro-me de em tempos ter dito ao Nuno, um pouco na brincadeira e um pouco a sério, que até nem me importaria de ser uma lostie naquela ilha de ficção que não vem nos mapas e que ninguém consegue encontrar. Acho que não estava muito longe da verdade. A principal diferença em relação à tal ilha é que (teoricamente), daqui posso sair quando quero. Mas acho que isso é possível apenas porque não estou numa ilha… geograficamente falando. Em termos práticos estou mais ou menos aprisionada numa ilha de trabalho que nunca mais acaba, porque aqui trabalhar é um processo complicado, em que cada tarefa demora uma eternidade até que se consiga concluir.

A inicialmente estranha sensação de incomunicabilidade com o mundo deixou de ser assim tão estranha. A internet deixou de ser “o vício dos tempos modernos” para ser “um vício de tempos passados”. Também me habituei a andar sempre com dois telefones. Com um bocado de sorte e de paciência um deles há-de servir para alguma coisa… ou não. Consegui dar os parabéns a um amigo em Portugal que fez anos, com apenas 3 dias de atraso… Estou aqui há 5 meses, mas por vezes sinto-me como se cá estivesse desde o início dos tempos. E até ao fim dos tempos fosse ficar. Ainda acabo por me convencer que aqui também é mundo. Apenas um mundo diferente.

Bem, isto só para dizer que estou de volta… mais ou menos. Porque até final do mês estou “debaixo de água”. Laboralmente falando. E porque, entretanto, uma parte dos meus tempos livres foi adjudicada a uma boa causa… ou uma causa boa... whatever!

quinta-feira, 7 de maio de 2009

A minha aldeia (1)


É a aldeia onde tenho passado a maior parte do meu tempo de trabalho. Fica a cerca 60 km do ximbeco. São 25 km de boa estrada nacional, mais 30 km de estrada secundária com mais buracos do que asfalto e ainda mais 7 km de picada no meio do capinzal. É uma típica aldeia africana, com casas de adobe, chão de terra batida e cobertura de capim. Mangueiras enormes em cuja sombra se reúnem as assembleias e onde se recebem os convidados. Crianças que brincam descalças no terreiro, com brinquedos saídos da sua imaginação. Cabras, cabritos, bois e porcos que se passeiam livremente entre as habitações. Os adultos só se acham até pouco depois do nascer do sol, altura em que partem para a lavra, ou então ao pôr-do-sol, hora a que dela regressam. Os homens trazem as catanas e as enxadas. As mulheres também, e trazem ainda os molhos de lenha à cabeça. Há ainda que arranjar tempo para ir buscar a água na manivela, tarefa em que as crianças também ajudam.

São pobres as mais de duzentas famílias que ali habitam. A lenha é o fogão, o candeeiro de petróleo a clareza, o luando o leito onde pernoitam. São famílias camponesas que tiram o sustento da terra, que cultivam com pouco mais do que as suas mãos. O funge de bombó é o alimento de todas as refeições. Às vezes acompanham com um pouco de peixe ou carne seca, às vezes não acompanham com nada.

Tudo está incrivelmente limpo, os terreiros são varridos diariamente. Ao longo do dia esboça-se um fino tapete de folhas, que o vento faz desprender das mangueiras, mas que as cabras, vorazes, não deixam acumular. As raparigas em idade escolar, que ainda não vão às lavras, dedicam parte do seu horário livre a tarefas domésticas ou fazem os deveres à porta de casa. Os rapazes andam simplesmente por ali, conversando ou atrevendo-se junto das raparigas.

As crianças são alegres, talvez porque apesar da escassez crescem livres. Corpos esguios e ágeis que trepam às mangueiras, rastejam pelos ramos deixando-se depois escorregar para o solo. Os mais velhos reprovam a brincadeira, partir ramos significa menos fruta que há-de vir. Obedientes, de imediato encontram outro divertimento. Com imaginação e engenho constroem os seus próprios brinquedos com os materiais que têm à mão. Latas velhas e caules de bananeira que rapidamente tomam forma de carrinhos e de barcos. Nos dias ventosos, uma folha de mangueira apanhada do chão e espetada num pequeno pau transforma-se em hélice de avião. Lembra-me os moinhos de papel com que em criança costumava brincar à beira-mar. E os meninos-avião correm pelo terreiro, as folhas-hélice girando, girando... Quando vêm o “objecto mágico”… Madrinha, tira uma foto! Todos se apinham, parecendo querer entrar pela objectiva adentro. É preciso explicar que assim não vão caber todos, têm de se afastar um pouco. Lá sai a fotografia. Segue-se a excitação de se verem retratados e depois o retorno às brincadeiras. Lembro-me do título de um livro escolar da minha infância... uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma… é disso que se alimenta a alegria destas crianças. Respiro fundo e desvio o olhar.

Desvio também o pensamento para o trabalho a fazer.
À sombra da mangueira grande ouvem-se as queixas, conhecem-se os anseios, sentem-se as hesitações, adivinham-se os receios e as desconfianças. Reconhecem-se os esperançosos, confiantes no sucesso do projecto, os resignados no seu cepticismo indiferente e os descrentes convictos, cansados de projectos promessa de uma vida melhor. Não sei o que me é mais desconfortável, se a desconfiança, se a expectativa em algo para o que não tenho a certeza de poder contribuir. Dói-me a resignação deles, dói-me a minha insegurança doem-me as certezas e também as incertezas... between a rock and a hard place… é assim que vejo estes homens e mulheres e é assim que me sinto tentada a sentir! Mas aqui não pode haver lugar para a compaixão. Quem se perde na compaixão perde a proficiência, o rumo e até as forças… disseram-me há algum tempo atrás. Mas esta é uma aprendizagem que requer endurance. E em cada regresso a casa não consigo impedir-me de pensar que há os que tiveram a sorte de nascer no lado certo da vida e os que tiveram o azar de nascer no lado oposto.

E tomada da frivolidade bacoca dos privilegiados também não consigo impedir-me de pensar o quanto a minha aldeia é bonita.


(quando a net o permitir alargo a reportagem fotográfica)

sábado, 2 de maio de 2009

O ximbeco e arredores

A estrada para o ximbeco:

Ao virar da última curva:

A chegada:


O humilde quartinho:

O pátio:

O bicho "papão":

Lá fora também se trabalha:

O resto é paisagem:

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Papeando

- Oi camba, lá tem maca?
- Yah!... diz que engomaram um muadié...

? :s ?